Na prática diária como consultor financeiro, sou frequentemente procurado por pessoas que acabam tomando decisões financeiras que parecem perfeitamente compreensíveis e justificáveis quando consideramos o mundo em que vivemos e as pressões a que estamos sujeitos, mas que não fazem nenhum sentido do ponto de vista financeiro. Um exemplo típico é quando a pessoa adquire um consórcio, um plano de aposentadoria privada, um título de capitalização ou seja lá o que for, por que ela precisa ser “obrigada” a direcionar dinheiro para aquele compromisso, e assim fazer uma poupança ou patrimônio (ou pelo menos algo que ela acredita ser poupança ou patrimônio).

Se não houver um boleto para pagar, um banco cobrando ou uma ameaça de multa, a pessoa seria incapaz de fazer aquela “poupança” por si mesma. Pessoas que agem dessa forma me procuram dizendo que tem um problema financeiro. E eu sou obrigado a dizer: “não, você não tem um problema financeiro, você tem um problema de outra natureza”.

Problemas financeiros, acreditem se quiserem, costumam ser relativamente fáceis de resolver. Problemas financeiros são, em última instância, problemas matemáticos. Resolvem-se fazendo contas, analisando custos, cortando gastos desnecessários, negociando com credores e buscando outras fontes de renda, nada além disso.

Mas a pessoa que precisa ser obrigada, por um terceiro, a fazer sua poupança, não tem um problema financeiro. Ela tem um problema de natureza psíquica, que a impede de estabelecer e cumprir compromissos com a pessoa mais importante (ou que ao menos deveria ser) da vida dela: ELA MESMA. Ela tem dificuldade, por exemplo, em estabelecer um compromisso como “todo dia 15 do mês comprarei 200 reais em títulos de renda fixa ou ações para minha aposentadoria”. Ela pode fazer isso por dois ou três meses, mas logo depois a disciplina vai embora e aqueles 200 reais começam a ser direcionados para outras coisas, como consumo, outras dívidas, “baladas” ou algo do gênero. Ela acaba recorrendo a um plano de aposentadoria privada, que a “obrigará” a fazer um depósito mensal (e cobrará também um monte de taxas…) para fazer EXATAMENTE A MESMA COISA que ela poderia fazer sozinha, que é aplicar em títulos financeiros.

Se não houver um boleto para pagar, a coisa simplesmente “não anda”. Essa pessoa, na verdade, está transformando o banco, a seguradora, ou seja lá quem for na sua “figura paterna”, que manda, estabelece regras e pune quando falhar. Como ela mesma não se pune, também não consegue cumprir o compromisso consigo mesma.

Pessoas assim também são vítimas de um fenômeno identificado pelos estudiosos de finanças comportamentais conhecido como “contabilidade mental”, que, resumidamente, é o nosso hábito de separar os “dinheiros” como se fossem coisas diferentes. É o caso da pessoa que contrai dívidas caras quando tem aplicações financeiras, mas não quer “mexer” nas aplicações. A única explicação lógica para isso é que a pessoa não confia em sua própria capacidade de “recolocar” o dinheiro das aplicações devidamente corrigido, caso faça um “empréstimo para si mesma”.

Uma saída para isso, já que essa pessoa “necessita” de uma ameaça de punição, é ela estabelecer essa punição dentro de casa, durante um período de “dessensibilização” até que ela consiga ganhar o hábito de cumprir obrigações consigo mesma. Por exemplo, fazer um contrato consigo mesma (assinado), se comprometendo a poupar “X” por mês e aplicar em um fundo de investimentos, por exemplo, e pedir a outra pessoa (parente ou amigo) que assuma o papel de “fiscal”, aplicando uma punição previamente combinada caso haja algum deslize no acordo.

E, obviamente, aproveitar e fazer um último contrato consigo mesma, estabelecendo que, após determinado período, não serão necessárias mais punições, pois ela já saberá quem é a pessoa mais importante da vida dela e a quem deve pagar primeiro, sempre.

André Massaro
Educador financeiro e especialista em finanças pessoais
Autor dos livros “MoneyFit” e “Por dentro da bolsa de valores” (Matrix Editora)
Twitter: @andremassaro