Sou um grande defensor da idéia de que nossas finanças são algo importante demais para se “terceirizar”, mas em algum momento pessoas podem precisar de ajuda profissional especializada.

Em toda família sempre tem algum membro que acha que consegue curar qualquer doença com óleo de rícino ou alguma outra substância pitoresca. Da mesma forma, é só falarmos que estamos passando por algum problema financeiro e logo aparece um “Einstein das finanças” propondo uma solução simples (a palavra mais adequada seria “simplista”) para um problema complexo. Algumas pessoas gostam de dar palpites na vida financeira alheia da mesma forma que dão palpites na escalação da Seleção Brasileira.

Mas como, então, saber quem procurar e em quem confiar em um mundo em que sempre há um “gênio não-descoberto” das finanças pronto para dar palpites na administração do dinheiro alheio?

Vamos ver, a seguir, alguns tipos de profissionais a quem devemos recorrer quando precisamos de apoio financeiro, e é importante saber “quem é quem” e “quem faz o quê”, para que possamos escolher a pessoa certa para a situação certa.

O gerente de banco

O gerente de contas (ou “gerente de banco”) é o profissional responsável pelo relacionamento do banco com seus clientes. Sua função primária é “vender” os produtos e serviços do banco. Sua função secundária é ajudar os clientes e orientá-los no uso adequado desses produtos e serviços. É preciso deixar claro essa diferença entre a função primária e secundária, pois o cliente precisa entender que, quando ele busca orientação de um gerente de banco, há um conflito de interesses inerente.

As instituições financeiras estão conscientes desse conflito e, por isso, cada vez mais exigem que seus profissionais sejam certificados para assegurar que atendam a rigorosos padrões técnicos e éticos.

Em geral, gerentes de banco são pessoas capacitadas e altamente íntegras, mas em algumas situações podem acabar induzindo clientes a tomar decisões que não são as melhores para eles. Isso pode ocorrer por despreparo, por pressão do empregador para cumprimento de metas comerciais ou mesmo por algum deslize ético. Por isso é sempre interessante ter algum grau de educação financeira para poder discutir com seu gerente de igual para a igual. E, na dúvida, nunca se esqueça que o gerente trabalha para o banco, e não para você.

O administrador de carteiras

O administrador de carteiras é um profissional autorizado pela CVM a tomar decisões de investimento em nome de seus clientes. Em poucas palavras isso significa que ele pode “mexer no seu dinheiro”, comprando ações e títulos sem necessariamente consultá-lo antes.

Os requerimentos para se tornar administrador de carteiras são rigorosos, por causa do potencial “estrago” que podem causar nas contas dos clientes caso não trabalhem corretamente.

Se você precisa de alguém para “tomar conta” de seus investimentos, tomando decisões em seu lugar, você precisa de um administrador de carteiras. Os administradores de carteiras autorizados a trabalhar estão listados no site da CVM (www.cvm.gov.br) na seção “participantes do mercado”. Certifique-se que o nome do profissional está lá antes de contratar qualquer serviço. Em geral, administradores de carteira que trabalham de forma independente são remunerados através de um percentual dos lucros que eles geram.

O consultor de valores mobiliários

Mais um profissional de quem o registro na CVM é exigido. O papel do consultor de valores imobiliários é dar recomendações de compra e venda de valores mobiliários, como ações e debêntures. Esse é o profissional que você deve consultar caso queira saber qual ação deve comprar ou vender.

Os consultores de valores mobiliários também estão listados no site da CVM. Consulte o registro antes de contratar serviços de profissionais que se apresentam como tal. A remuneração do consultor de valores mobiliários é cobrada diretamente do cliente. Para evitar conflitos de interesse, consultores de valores mobiliários não devem receber comissões por suas indicações de produtos e serviços financeiros.

O analista de valores imobiliários

É um profissional, também registrado na CVM, que tem como função elaborar estudos que sirvam de base para decisões financeiras. Normalmente esses profissionais trabalham para instituições financeiras e consultorias especializadas. Eles podem dar suas opiniões sobre os ativos financeiros que analisam, mas não podem “induzir” pessoas diretamente a tomar decisões – esse é o trabalho do consultor de valores mobiliários.

O agente autônomo de investimentos

É, grosso modo, um “representante comercial” de instituições financeiras. Sua função é, basicamente, comercializar produtos da instituição que representa e prover um suporte técnico limitado a seus clientes. Ele não pode exercer atividades como administração de carteiras ou consultoria, a não ser que esteja autorizado pela CVM.

O caminho para se virar um agente autônomo de investimentos é relativamente fácil. É preciso apenas segundo grau completo e não é exigida experiência anterior. Basta passar na prova e não estar legalmente impedido. Por isso, dentre as funções regulamentadas pela CVM, é aquela que apresenta maior número de restrições e limitações.

A remuneração dele é paga pela instituição que ele representa, e nunca pelo cliente. Assim como outros profissionais registrados na CVM, seus nomes estão disponíveis no site da autarquia para consulta.

O planejador financeiro

Também conhecido simplesmente como “consultor financeiro”. É o profissional que tem como função ajudar o cliente a resolver situações pontuais (como negociar uma dívida ou planejar a aposentadoria) ou então fazer um planejamento financeiro completo, que pode envolver toda a família do indivíduo.

O planejador financeiro não pode exercer atividades reservadas aos profissionais registrados na CVM, a não ser que ele mesmo seja um deles. O planejador financeiro pode, em muitos casos, trabalhar em conjunto com um consultor de valores mobiliários ou administrador de carteira.

A profissão de planejador financeiro não é regulamentada, mas existe uma certificação chamada CFP (Certified Financial Planner), muito popular nos EUA e que no Brasil é emitida pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF), ligado à ANBIMA. A certificação não é obrigatória, mas como o processo para obtê-la é bastante rigoroso, escolher um profissional certificado dá alguma segurança de que ele está alinhado com altos padrões técnicos e éticos. Os profissionais certificados estão listados no site do IBCPF em www.ibcpf.org.br.

O coach financeiro

O coach (“treinador”) é um profissional cujo trabalho é capacitar seu cliente para atingir um determinado objetivo – no caso, financeiro. O coach não é um consultor, no sentido de ser alguém que diz ao cliente o que ele deve fazer. O coach orienta o cliente em um processo de aprendizado e capacitação, para que ele possa tomar decisões e atingir objetivos por si mesmo.

O coaching não é regulamentado. Tecnicamente falando, qualquer um pode sair por aí dizendo que é coach, por isso é importante conhecer a reputação e o histórico do profissional antes de contratá-lo. Existem inúmeras entidades que “certificam” coaches, mas nenhuma delas tem qualquer reconhecimento oficial.

Se o processo de coaching for bem sucedido e bem conduzido, espera-se que o cliente esteja capacitado para cuidar de sua vida financeira e não precise de orientação de nenhum dos profissionais anteriormente descritos.

O picareta

Esse nem sempre é tão fácil de identificar. Existem picaretas de todos os tipos, tamanhos e cores. Tem aquele que você sabe que é picareta a quilômetros de distância, e também tem aquele que em nada aparenta ser um picareta, mas ele é.

Alguns picaretas podem inclusive ser profissionais certificados por órgãos oficiais e com histórico profissional impecável, mas foram seduzidos pelo “lado picareta da força”.

Fique atento a supostos profissionais financeiros que oferecem investimentos fantásticos com retorno “garantido” ou que propõem esquemas obscuros resolução de dívidas onde você tem que colocar “algum dinheiro” na frente. Você pode estar de cara com um legítimo picareta.

Se encontrar um deles, corra! Corra muito! E avise as autoridades…

André Massaro
Educador financeiro
Autor dos livros “MoneyFit e “Por dentro da bolsa de valores” (Matrix Editora)
www.moneyfit.com.br
www.andremassaro.com.br
Twitter: @andremassaro