Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 22/06/2017
Por: André Massaro
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Vamos começar com um pouco de história… Em especial, da MINHA história. Minha vida profissional pode ser, grosseiramente falando, dividida em quatro “fases”. A primeira, no início da carreira, foi quando trabalhei diretamente no mercado financeiro, seja em instituições financeiras ou em consultorias especializadas. A segunda fase foi quando eu trabalhei como gestor financeiro de empresas (não-financeiras) e, no final dessa fase, eu enterrei, definitivamente (bem… pelo menos eu acho!) a minha carreira corporativa. A terceira fase foi aquela em que me interessei pelo trading em renda variável (ações e futuros) como meio de vida. A quarta fase é a atual, na qual estou mais focado na educação financeira e no desenvolvimento de conteúdos. Estou numa “área cinza” entre as finanças e a comunicação.

Hoje quero falar um pouco sobre essa “terceira fase”. Acho importante tratar deste assunto, pois estamos numa situação econômica um tanto complicada (sem sinais inequívocos de que vá “descomplicar”) e o desemprego voltou a ser, talvez, a principal preocupação do brasileiro. Não apenas o desemprego está muito alto (o número de desempregados já rompeu, há um bom tempo, a barreira dos dez milhões), como está afetando aquele pessoal que, de forma geral, mais “demite” do que “é demitido”: Os gerentes, líderes e profissionais de nível executivo.

Esses profissionais, quando saem dos empregos, em geral, saem com uma “boa grana”, por conta das indenizações trabalhistas. Mas também são esses os profissionais com mais dificuldade em se recolocar, por serem caros e, aos olhos de muitas organizações, “velhos” (o preconceito existe, não adianta negar).

É natural que, em situações assim, muitas dessas pessoas comecem a olhar o trading (as operações especulativas, usualmente de curto prazo, com instrumentos de renda variável) como uma opção de vida. Afinal, o que pode ser melhor do que “fazer dinheiro com o próprio dinheiro”? Por conta disso, o mercado de recursos e de informações para esses investidores mais “ativos” está fervilhando. Eles estão comprando cursos, livros, relatórios… As redes sociais e comunidades na internet estão movimentadíssimas e eu consigo observar um pouco dessa movimentação, de forma bastante clara, na própria bolsa (onde sou professor – B3 Educação) – os cursos de ações andavam um tanto “caídos” e, de algum tempo para cá, estão “bombando”.

O próprio desempenho da bolsa (pelo menos até aquele infame incidente da “delação”, ocorrido em maio) estava encorajando muita gente a entrar. E percebo, claramente, que boa parte desses “novos entrantes” não são simples investidores buscando aumentar seus patrimônios, mas sim pessoas que estão olhando para aquilo tudo como um “negócio”, como uma atividade para gerar renda (ou repor a renda que foi perdida junto com o emprego).

E aí vem aquela pergunta que não quer calar: É possível transformar o trading em um meio de vida?

Falando da minha experiência própria: Eu vivi disso por mais de cinco anos. Tudo bem que foi naquele período “glorioso” que veio depois de 2003, que a bolsa praticamente “subiu em linha reta” pelos anos seguintes (talvez o talento individual de cada trader não tenha um grande mérito mérito em cenários muito favoráveis…), mas o fato é que eu vivi disso. Não fiquei “milionário”, mas consegui viver com alguma dignidade. Porém, vivia num estado de tensão permanente, especialmente no final desse ciclo, quando vi a maioria das pessoas que eu conheci nessa jornada quebrar “em grande estilo”, um atrás do outro…

Eu resolvi parar, pois, na minha cabeça, o trabalho que eu tinha e o stress que eu vivenciava não compensavam o resultado (mas admito que isso é uma coisa minha, e não do mercado). Olhando para trás, eu acho que eu não tinha a maturidade e a serenidade para “aguentar o tranco”, e a maioria das pessoas que começou comigo também não. Desses que quebraram, creio que a quebra foi resultado da soma de uma metodologia deficiente (aliás, metodologias deficientes e “furadas” são o que mais tem por aí…), negligência no gerenciamento dos riscos e expectativas irrealistas.

Então, baseado nessas experiências vividas e no fato de já ter visto “muitos corpos no chão”, eu diria que, sim, é possível “viver de trade”. Porém… não é do jeito que a maioria das pessoas imagina.

Não dá para “tirar um salário” do mercado (ou pelo menos não no longo prazo) e o trabalho é intenso. Os ganhos acabam sendo irregulares, com períodos positivos e negativos. Acompanhar o mercado em busca do timing ideal é difícil e desgastante. Bem, com relação a isso, podemos automatizar as estratégias (usando os famosos “robôs”), mas desenvolver, testar e validar uma estratégia viável não é uma coisa exatamente “fácil”. Ou seja… tem que trabalhar e não há muita previsibilidade do quanto se vai ganhar.

A imagem do sujeito que “opera na praia”, olhando o notebook entre um mergulho e outro é, em grande parte (estou sendo gentil aqui…), uma ilusão. Mesmo quando se automatizam todas as operações, a quantidade de coisas que podem dar errado é enorme e é preciso manter vigilância constante.

Então, se é o caminho que você pretende seguir (e se minha experiência pode ajudar em algo…), invista numa metodologia sólida (e teste MUITO antes de colocar dinheiro de verdade em jogo), aprenda tudo o que puder sobre gerenciamento de riscos e tenha expectativas realistas. Nunca perca de perspectiva que, se fosse “essa moleza toda”, ninguém estaria trabalhando hoje…

E a última coisa que eu gostaria de dizer é que, em relação ao período em que me dediquei a essa atividade, as ferramentas melhoraram muito, especialmente aquelas que permitem a automatização das operações. Não que isso seja um convite a entrar nesse mundo, mas eu mesmo o tenho visto com olhos um pouco melhores do que quando saí dele.