Renegociação de dívidas – comece “do jeito certo”

Postado por em jun 15, 2017 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 15/06/2017 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. O arsenal de ferramentas financeiras para quem quer renegociar e recompor dívidas vem aumentando. Até pouco tempo, o “caminho de menor resistência” para quem quisesse colocar a casa em ordem era o crédito consignado (ainda presente, mas que começa a ficar um pouco menos acessível à medida que mais pessoas perdem seus empregos). Recentemente, a liberação de saldos inativos do FGTS abriu mais uma possibilidade e tem, também, o crédito com garantia em imóvel (home equity), que começou a ganhar relevância há poucos anos, ainda de forma tímida, mas que vem se tornando mais popular. O fato de termos mais opções de crédito não significa que elas estejam mais acessíveis. Pelo contrário, é notório que as instituições financeiras estão restringindo o acesso ao crédito, mas as ferramentas vão surgindo, e aumenta o número de pessoas que se conscientiza da necessidade de colocar a vida financeira novamente nos eixos. Porém, renegociar uma dívida é algo que exige uma preparação que, frequentemente, é negligenciada. As pessoas se “apressam” em renegociar as dívidas (e isso é compreensível, dado o grau de angústia e stress que elas causam) e acabam não dando a devida atenção para duas coisas de suma importância: Dívida não é um problema A primeira delas é que o endividamento não é um problema. Ele é uma “consequência” – algo que resulta de um outro problema, que pode ser a perda do emprego (ou outra fonte de renda), decisões de consumo inconsequentes entre outras coisas. Antes de renegociar uma dívida, é importante que se descubra qual é o “verdadeiro problema” – qual é a causa daquele endividamento. Tratar uma dívida como mero “problema financeiro” faz com que, na maioria das vezes, as pessoas resolvam “o problema errado”. Elas pegam uma linha de crédito, equacionam as dívidas e a vida segue “do mesmo jeito”. O resultado disso é que apenas se “empurra com a barriga” aquilo que iria acontecer, inevitavelmente. A pessoa está à beira da falência, porém, faz uma nova dívida, ganha um fôlego financeiro adicional e, assumindo que as verdadeiras causas não sejam resolvidas, ela vai falir do mesmo jeito, só que “um pouco mais tarde”. Atenção à capacidade de pagamento A outra coisa que costuma ser negligenciada é a real capacidade de pagamento da pessoa. Na pressa em “resolver” a situação (e também por conta da pressão dos credores), algumas pessoas se comprometem em renegociar uma dívida em condições pouco realistas, que elas não vão conseguir cumprir. Isso acaba levando a um “novo calote”, que frustra tanto o devedor como o credor, e pode acabar erodindo...

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O ciclo da vida financeira (e seu efeito “desmotivacional”)

Postado por em maio 25, 2017 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 25/05/2017 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Um tema bastante comum e discutido em finanças pessoais é o “Ciclo da Vida Financeira”, baseado na hipótese do ciclo de vida, um modelo que pressupõe que as pessoas tomam suas decisões de consumo e investimentos conforme os recursos disponíveis e o “momento de vida”. O modelo básico foi proposto por Franco Modigliani, economista americano de origem italiana (que ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 1985, mas por outro motivo…). O modelo parte da pressuposição de que as pessoas, em geral, seguem um padrão mais ou menos definido de acumulação de patrimônio, conforme o gráfico abaixo (que faz parte das apresentações da B3 Educação – antigo “Instituto Educacional BM&FBOVESPA” – da qual sou professor). Segundo o modelo, as pessoas começam suas vidas profissionais, geralmente, por volta de 20 anos de idade e ganhando pouco. Mais ou menos por volta dos 30 anos, a pessoa entra em seu estágio de maior “aceleração” profissional (com promoções e aumentos), o que leva a uma igual aceleração na construção do patrimônio (ainda mais assumindo-se que as obrigações familiares, nesta fase da vida, costumam não ser tão grandes). Por volta de 40-50 anos, as pessoas começam a ficar um pouco mais conservadoras, com foco maior na preservação do patrimônio já acumulado. Com isso, a curva de crescimento começa a cair. E assim segue até chegar na idade da aposentadoria em que, imagina-se,  a pessoa para de acumular patrimônio e começa, na verdade, a “desacumular” – a usar o patrimônio para suas subsistência. Aí a curva passa a apontar para baixo. O modelo faz sentido e foi criado para dar uma “visão geral” dos níveis de poupança de uma economia conforme o perfil etário da população. O problema é quando as pessoas pegam um modelo que foi feito para analisar a economia “como um todo” e o aplicam às suas vidas individuais. Sempre que eu mostro este gráfico numa palestra, eu faço várias ressalvas de que as pessoas devem evitar “medir” seu próprio progresso financeiro usando o gráfico do ciclo da vida financeira como referência. Isso porque, no mundo real, a realidade de grande parte das pessoas está descolada daquilo que o gráfico mostra, e sua simples exposição acaba gerando um efeito fortemente “desmotivacional”. Inúmeras pessoas na faixa dos 40 anos já vieram falar comigo, constrangidas (após verem o gráfico), sobre o fato de não terem conseguido “acumular nada” (frequentemente, sequer têm uma previdência pública). Às vezes, a coisa vem até com uma dose exagerada de ironia ou dramaticidade, quando as pessoas me perguntam coisas como “E agora, o que eu faço?...

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Revendo o conceito de “investidor conservador”

Postado por em mar 2, 2017 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 02/03/2017 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Estamos passando por um daqueles momentos “peculiares” no mercado financeiro brasileiro. As taxas de juros começaram a baixar e os investidores já começam a se perguntar se suas atuais estratégias de investimentos, que vêm sendo bem sucedidas até então, serão viáveis no futuro. Nossos juros ainda são muito altos e estão distantes daquele patamar que estávamos em 2012, quando chegaram à suas mínima histórica em anos recentes, mas há, entre investidores, analistas e economistas, uma sensação de “agora vai”. Uma percepção de que, se nada der errado (em especial no campo político/institucional), as taxas de juros devem caminhar consistentemente para baixo, eventualmente rompendo o patamar de 2012. Talvez estejamos vendo o crepúsculo da “era de ouro da renda fixa”. Talvez os próximos anos sejam os últimos em que será possível ter retornos significativos, por exemplo, com títulos públicos federais. Talvez estejamos vendo a última oportunidade de nos posicionar em títulos de longo prazo, com décadas à frente, que pagam boas taxas de juros e são corrigidos pela inflação. Há uma razoável possibilidade de que essa “moleza” vai acabar. Não sei quando, mas, se eu tivesse que apostar, daria mais alguns poucos anos antes de a renda fixa perder o brilho (novamente, assumindo que nenhuma “desgraça”, no cenário político interno ou externo, aconteça no caminho). Com isso, precisaremos rever nossos conceitos sobre o que é um “investidor conservador”. Há pouco tempo, estava lendo um artigo sobre um famoso investidor brasileiro, que recentemente começou a publicar boletins por email (sim, é aquele mesmo que você está pensando…), e o artigo argumentava que o referido investidor era “extremamente agressivo”, por investir majoritariamente em renda variável e demonstrar certo desprezo pela renda fixa. De fato, para os padrões brasileiros atuais, ele é um investidor altamente agressivo. Aqui no Brasil, qualquer pessoa que tenha metade de sua carteira em renda variável é olhada por outros investidores e profissionais do mercado financeiro como alguém que acabou de fugir do hospício… Por outro lado, se o mesmo investidor estivesse nos Estados Unidos (ou em outra economia desenvolvida), provavelmente ele seria considerado um investidor extremamente conservador, por demonstrar uma preferência por ações de “valor” e de empresas pagadoras de dividendos. Aqui, chegamos ao cúmulo de considerar um investidor que compra títulos como o Tesouro IPCA de longo prazo como “agressivos”. Obviamente, a única coisa que explica essa percepção é o cenário completamente distorcido pelas nossas absurdamente altas taxas de juros, que permite a investidores ganhar um razoável dinheiro em instrumentos extremamente conservadores que, nas economias desenvolvidas, seriam “inócuos”, como títulos públicos de curto prazo e...

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Sinais de alerta de “infidelidade financeira”

Postado por em fev 14, 2017 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 14/02/2017 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. O tema “infidelidade financeira” é recorrente aqui no blog, e é um dos assuntos que mais dão “pano pra manga” no universo das finanças pessoais. Para quem ainda não teve contato com o tema, sugiro dois artigos que foram publicados no blog: Um em 2012 (Você é “financeiramente infiel”?) e outro em 2013 (Erros financeiros que os casais cometem). A infidelidade financeira é quando, num casal, os cônjuges escondem informações financeiras um do outro. Tanto podem ser informações referentes a gastos (compras escondidas, endividamento etc.) quanto a dinheiro sobrando (reservas financeiras e investimentos “ocultos”). A infidelidade financeira é algo sempre ruim (pois envolve uma “fissura” na confiança do casal) e, muitas vezes, acaba sendo precursora de outros tipos de infidelidade. Mas existem muitos casos em que a infidelidade financeira é “bem intencionada” (quando um dos cônjuges, sabendo que o parceiro ou parceira é completamente “porra louca” com dinheiro, faz uma reserva financeira escondida para o caso de alguma emergência). Porém, como diz aquele velho provérbio, “o caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções” – mesmo quando a infidelidade é cometida com pureza de intenção, demonstra que há uma fraqueza na confiança mútua do casal. Mas vamos ver alguns sinais que indicam uma possível infidelidade financeira “em andamento”: 1-Encontrar extratos de contas e cartões que você não conhece Naturalmente, muitos casais optam por uma total separação de contas. Quando essa separação é total, explícita e consentida, não há o que falar. Porém, quando um casal gere as finanças de forma conjunta e essas “novidades” aparecem, fica bastante óbvio que um dos cônjuges está querendo conduzir operações financeiras com mais “privacidade”. 2-Preocupações súbitas com dinheiro Quando um dos cônjuges começa a demonstrar excessiva preocupação com dinheiro, sem motivo aparente (não houve uma perda de renda ou nenhum evento que envolva grande desembolso), isso é um sinal suspeito. Porém, é importante não confundir “paranoia” com o desejo de controlar, planejar e conhecer as contas. O fato de um cônjuge começar a analisar extratos bancários e procurar entender melhor os gastos é uma coisa positiva, e não negativa. A preocupação excessiva e o comportamento obsessivo é que indicam algo suspeito 3-Generosidade financeira “gratuita” Aqui um ponto difícil de “trabalhar”, pois cônjuges, de uma forma geral, adoram ganhar “mimos” e ficam felizes com arroubos de generosidade. Porém, quando não há uma origem financeira conhecida para aqueles recursos e o cônjuge “mão aberta” não dá nenhuma pista sobre a fonte dessa “riqueza repentina”, é o caso de se investigar um pouco melhor. O mesmo vale quando o cônjuge está sendo altamente...

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Perigos do “empreendedorismo por necessidade” em tempos de crise

Postado por em jan 31, 2017 em Artigos | 0 comentários

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 31/01/2017 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Olá, leitores do “Você e o Dinheiro”! Depois de um 2016 um pouquinho “irregular”, vamos para o primeiro post de 2017. E quero falar sobre um assunto que esteve bastante presente ao longo de 2016: desemprego. Ao longo do ano passado (e no começo deste ano), tenho observado duas coisas: Uma delas é um grande número de novos negócios abrindo (pelo menos na região em que eu moro). São negócios “menos sofisticados”, que poderíamos classificar como ”comércio de bairro”. Coisas como salões de beleza, academias de ginástica, lojas de bolos caseiros e coisas do gênero. A segunda é uma procura renovada por cursos de investimentos em renda variável, com foco especial naqueles que são voltados para a geração de renda. O pessoal que quer virar “trader” e transformar o próprio patrimônio em um negócio… Eu, como professor na bolsa de valores e “membro militante” da educação financeira, consigo ver claramente a transformação – até uns poucos anos, cursos voltados para o segmento de renda variável estavam “às moscas”. Agora, as turmas estão lotadas. Aumento na atividade empreendedora e no mercado de renda variável é “quase sempre” algo positivo, mas eu receio estar vendo algo que já vi no passado (ao menos no que diz respeito à criação de novos negócios com o perfil que descrevi): Dinheiro de indenização trabalhista entrando no mercado… O desemprego voltou com tudo e está, agora, pegando aqueles profissionais qualificados e com um histórico de estabilidade em seus empregos. Gente que ganha bons salários e que, ao perder o emprego, acaba saindo com uma “grana boa”, frequentemente na casa de centenas de milhares de reais. Aí surge a dúvida: “O que fazer com esse dinheiro?”. Muitas pessoas, ao sentirem que a recolocação profissional não será tão fácil (ou mesmo que ela será inviável, ao menos em condições similares ao “status” perdido), partem para o caminho do empreendedorismo. Mas não é um empreendedorismo planejado e movido por uma legítima vontade de empreender (e um gosto pelo risco), e sim uma tentativa de “comprar um emprego”. No caso das pessoas que buscam o caminho do mercado financeiro, eu mencionei, num programa recente, a questão do “grupo de risco” que se aventura nas operações de curto prazo em bolsa de valores (explorarei este assunto em breve aqui no blog). Se o padrão estiver consistente com aquilo que já vi no passado, a má notícia é que grande parte dessas iniciativas vai naufragar, e muitos patrimônios, que levaram anos (ou décadas) para serem construídos, se perderão. Momentos de crise (que envolvem perda de renda) acabam levando pessoas...

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A “morte” da renda fixa? (Not so fast…)

Postado por em dez 13, 2016 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 13/12/2016 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Uma das características do ano de 2016, no que diz respeito a finanças e economia, foi a retomada (ainda que gradual e discreta) dos cortes na taxa Selic e a diminuição nas expectativas para a inflação futura. Para os empresários e para o público geral, usualmente a queda nos juros é uma boa notícia, mas, no nosso caso, essa queda vem acompanhada de um aumento da incerteza. A aversão ao risco deverá permanecer alta e vamos descobrindo que “dinheiro mais barato” não é sinônimo de “dinheiro mais acessível”. Para um investidor, particularmente o investidor em renda fixa, queda de juros é a matéria prima dos pesadelos, em especial para aqueles investidores com planos de longo prazo ou que usam os investimentos para geração de renda. Outra característica de 2016, no contexto dos investimentos, foi um “retorno à vida” da bolsa de valores. O mercado ficou animado, entre outras coisas, com desdobramentos na cena política, e muitas oportunidades surgiram, inclusive gerando ganhos expressivos. O que levou muitos investidores (especialmente aqueles que estão na “zona de conforto” da renda fixa) a se perguntarem “já é hora de mudar de estratégia e começar a migração para a renda variável”? A minha resposta para essa pergunta sempre acaba vindo cheia de vieses (é inevitável). Pelas circunstâncias de mercado, nos últimos anos tenho falado muito mais sobre renda fixa, mas minha “área de origem” é renda variável. Sou um entusiasta da renda variável e um crente no poder do mercado de capitais para desenvolver a economia. Mas, por mais que eu sinta uma vontade de dizer “vamos para a bolsa!”, eu quero lembrar algumas coisas sobre nossos juros. A primeira é que as projeções mais otimistas indicam que, ainda que estejamos em uma trajetória de queda, a taxa deverá se manter nos dois dígitos ao longo de 2017 (ou seja, permaneceremos naquele patamar em que, pelos padrões internacionais, os juros são considerados “indecentes”). A segunda é que as taxas reais projetadas (acima da inflação) não estão refletindo (ou pelo menos não nas mesmas proporções) essa queda. Ou seja, parece que ainda teremos boas oportunidades por algum tempo e os anúncios da “morte” da renda fixa estão sendo um pouco precipitados… Eu não acredito (ou, ao menos, não quero acreditar) que o Brasil vai continuar sendo o “paraíso da renda fixa” por muito tempo. Isso beneficia o investidor, mas prejudica o empresariado e a população em geral. Em algum momento, teremos que nos aproximar mais daquilo que se pratica (em termos de juros) no resto do mundo, pois temos taxas de juros, hoje,...

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