16/03/2019 •

Até que ponto as “casas” de análises financeiras são confiáveis?


A resposta “rápida e direta” para essa pergunta é: Na maioria das vezes, SIM, dá para confiar… Porém, é preciso entender o que significa “confiar” neste contexto. Por isso, eu recomendo fortemente que você continue lendo este artigo (ou pode acabar “pagando o preço” na hora de investir…).

A primeira coisa que o investidor precisa saber é que, no Brasil, a atividade de analista de investimentos (ou “Analista de Valores Mobiliários”, no nome formal) é fortemente regulada. Um analista precisa ser certificado pela APIMEC (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais). A APIMEC emite a certificação CNPI (Certificado Nacional do Profissional de Investimento) e, apenas de posse dessa certificação, o analista pode se cadastrar na CVM. Se não cumprir esses dois requisitos (certificação e registro na CVM), a pessoa não pode fazer recomendações de investimento.

Uma atividade restrita

Ou seja, não é qualquer “Zé Arruela” que pode sair por aí dando recomendações de investimento. Essa necessidade de certificação e registro já funciona como um grande filtro (que, obviamente, não é perfeito). Muitos analistas incompetentes e mal-intencionados acabam passando nessa “peneira” da APIMEC e da CVM. Mas a quantidade de maus profissionais já é drasticamente reduzida nesse processo.

Isso já responde, em grande parte, sobre a confiabilidade. Analistas certificados pela APIMEC tiveram que passar por uma prova (e a prova do CNPI não é das mais fáceis do mundo…). Então, presume-se que essas pessoas tenham o conhecimento técnico para dar as suas recomendações. Também se presume que elas (ou a maioria delas) atendem aos padrões éticos e fiduciários do mercado.

Então, de forma geral, dá para se confiar nos analistas e nas suas análises. Agora, se a sua ideia de “confiar” está associada à capacidade desses analistas conseguirem antecipar o futuro (e sempre “acertarem” em suas recomendações), aí a coisa vai ficar BEEEEEM complicada…

Mas vamos dar uma olhada em alguns pontos. Assim entenderemos melhor o que faz uma casa de análises financeiras. E, mais importante, até que ponto podemos confiar nelas (não só nos profissionais, mas nas análises que eles produzem).

Por que usar análises?

Qual é a motivação do investidor ao procurar uma casa de análises independentes? O que busca o investidor ao assinar uma newsletter ou serviço de recomendação de investimentos?

O cenário dos investimentos no Brasil está mudando. Aquela coisa de “ganhar 1% ao mês”, investindo em qualquer porcaria que o seu banco ofereça, é passado. Para o bem ou para o mal, o nível de complexidade dos investimentos está aumentando.

Analisar ações não é algo muito difícil (especialmente se você tiver algum conhecimento e um bom método). Mas também não é algo “super fácil”. Por isso, alguns investidores preferem ter orientação profissional para deixar o processo decisório mais fácil.

A importância da análise independente

Na minha visão de investidor e de educador financeiro, uma das coisas que definem um investidor de sucesso é a capacidade de identificar conflitos de interesse.

No caso das recomendações de investimento, os potenciais conflitos de interesse são gritantes. Por exemplo, quando uma recomendação de investimentos é feita por seu banco ou sua corretora, você nunca sabe, ao certo, se aquele investimento é melhor para quem está recomendando ou para quem está investindo.

Quando se opta por usar os serviços de uma casa de análises independente (“casa” é como se refere, no jargão, às empresas que publicam e vendem relatórios de análise de investimentos), você PAGA por esse serviço. E quando você paga por algo, você sabe que aquele profissional está (ou deveria estar) trabalhando PARA VOCÊ. Não para o banco, nem para a corretora de valores e nem mais ninguém.

Uma recomendação de investimentos feita por um banco ou corretora não é, necessariamente, ruim. Mas o fato de uma recomendação de investimentos vir de uma casa independente representa, por si só, uma segurança adicional.

Analista não é “vidente”

Aqui é onde a questão da confiança realmente “pega”. Analistas são treinados para entender e interpretar os mercados financeiros. Porém, no mercado financeiro, as coisas são muito mais aleatórias do que gostaríamos de admitir…

Por isso, por mais que um analista tenha estudado e seja perspicaz, ele não tem a capacidade de antecipar o futuro e dizer “o que vai acontecer”. Lamentavelmente, alguns investidores não entendem isso. E, ao não entenderem, acabam criando expectativas irrealistas sobre o trabalho dos analistas.

E, certamente, não ajuda o fato de algumas casas de análise fazerem um marketing um tanto exagerado. Isso acaba alimentando, no investidor, essas expectativas irreais. E, como bem sabemos, grandes expectativas levam a grandes frustrações…

Como as análises independentes “surgiram” no Brasil

Investir (especialmente no mercado de capitais) nunca foi um dos temas mais “populares” no Brasil. Nossa cultura de investimentos é incipiente e, como se diz por aí, o Brasil é “um país rico com uma população pobre”. A maioria das pessoas sequer consegue pagar suas contas (quanto mais investir…).

Por conta disso, o mercado de serviços financeiros voltado ao investidor individual sempre foi limitado. Porém, há alguns anos, duas coisas interessantes aconteceram:
A primeira é uma movimentação mais consistente dos nossos juros para baixo. Isso vem deixando a renda fixa menos atrativa e faz com que os investidores olhem “com outros olhos” para a bolsa e o mercado de capitais.

A segunda coisa é que uma empresa de análises resolveu “bancar a aposta” e investir no mercado brasileiro de análises independentes. Essa empresa (sim, você sabe de quem eu estou falando…) contou com a ajuda de um sócio estrangeiro (que faz a mesma coisa em seu país de origem) para desenvolver esse mercado de análises independentes no Brasil.

É uma empresa bastante controversa (especialmente pelo marketing agressivo). Mas, goste-se dela ou não, ela tem um mérito que ninguém pode tirar: Criou esse mercado aqui no Brasil “do nada”.

Na esteira dessa empresa surgiram muitas outras. Algumas com linhas editorias e de marketing completamente diferentes. Mas todas elas só existem porque alguém veio aqui e “criou o mercado” para elas (isso é algo que precisa ser reconhecido…).

A responsabilidade do investidor

Entendendo a questão do conflito de interesses e aceitando o fato de que os analistas não conseguem “ver o futuro”, um investidor poderá usar e tirar o máximo proveito de um serviço de análises financeiras. Algumas casas de análise têm uma visão própria sobre os mercados e podem seguir uma linha editorial pré-definida. Outras podem se especializar apenas em alguns mercados específicos.

Porém, a análise é APENAS uma ferramenta para ajudar na tomada de decisão. Não é um “oráculo” e nem um documento enviado do futuro por algum portal dimensional… Nenhum analista, por mais bem preparado que seja, tem a capacidade de antecipar o que os mercados financeiros vão fazer.

A decisão de investir sempre foi e sempre será do investidor. Com análises ou sem análises, com recomendações ou sem recomendações, quando o investidor acerta, o mérito é DELE. Da mesma forma, quando erra, a responsabilidade é DELE (e não do analista ou de quem for).

O investidor precisa ter consciência dessas limitações e precisa ter expectativas realistas com as recomendações de investimentos.

Entendendo isso, as recomendações das casas de análise podem ser uma boa ferramenta. Não entendendo isso, podem ser o caminho para a ruína.

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