Revendo o conceito de “investidor conservador”

Postado por em mar 2, 2017 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 02/03/2017 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Estamos passando por um daqueles momentos “peculiares” no mercado financeiro brasileiro. As taxas de juros começaram a baixar e os investidores já começam a se perguntar se suas atuais estratégias de investimentos, que vêm sendo bem sucedidas até então, serão viáveis no futuro. Nossos juros ainda são muito altos e estão distantes daquele patamar que estávamos em 2012, quando chegaram à suas mínima histórica em anos recentes, mas há, entre investidores, analistas e economistas, uma sensação de “agora vai”. Uma percepção de que, se nada der errado (em especial no campo político/institucional), as taxas de juros devem caminhar consistentemente para baixo, eventualmente rompendo o patamar de 2012. Talvez estejamos vendo o crepúsculo da “era de ouro da renda fixa”. Talvez os próximos anos sejam os últimos em que será possível ter retornos significativos, por exemplo, com títulos públicos federais. Talvez estejamos vendo a última oportunidade de nos posicionar em títulos de longo prazo, com décadas à frente, que pagam boas taxas de juros e são corrigidos pela inflação. Há uma razoável possibilidade de que essa “moleza” vai acabar. Não sei quando, mas, se eu tivesse que apostar, daria mais alguns poucos anos antes de a renda fixa perder o brilho (novamente, assumindo que nenhuma “desgraça”, no cenário político interno ou externo, aconteça no caminho). Com isso, precisaremos rever nossos conceitos sobre o que é um “investidor conservador”. Há pouco tempo, estava lendo um artigo sobre um famoso investidor brasileiro, que recentemente começou a publicar boletins por email (sim, é aquele mesmo que você está pensando…), e o artigo argumentava que o referido investidor era “extremamente agressivo”, por investir majoritariamente em renda variável e demonstrar certo desprezo pela renda fixa. De fato, para os padrões brasileiros atuais, ele é um investidor altamente agressivo. Aqui no Brasil, qualquer pessoa que tenha metade de sua carteira em renda variável é olhada por outros investidores e profissionais do mercado financeiro como alguém que acabou de fugir do hospício… Por outro lado, se o mesmo investidor estivesse nos Estados Unidos (ou em outra economia desenvolvida), provavelmente ele seria considerado um investidor extremamente conservador, por demonstrar uma preferência por ações de “valor” e de empresas pagadoras de dividendos. Aqui, chegamos ao cúmulo de considerar um investidor que compra títulos como o Tesouro IPCA de longo prazo como “agressivos”. Obviamente, a única coisa que explica essa percepção é o cenário completamente distorcido pelas nossas absurdamente altas taxas de juros, que permite a investidores ganhar um razoável dinheiro em instrumentos extremamente conservadores que, nas economias desenvolvidas, seriam “inócuos”, como títulos públicos de curto prazo e...

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Sinais de alerta de “infidelidade financeira”

Postado por em fev 14, 2017 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 14/02/2017 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. O tema “infidelidade financeira” é recorrente aqui no blog, e é um dos assuntos que mais dão “pano pra manga” no universo das finanças pessoais. Para quem ainda não teve contato com o tema, sugiro dois artigos que foram publicados no blog: Um em 2012 (Você é “financeiramente infiel”?) e outro em 2013 (Erros financeiros que os casais cometem). A infidelidade financeira é quando, num casal, os cônjuges escondem informações financeiras um do outro. Tanto podem ser informações referentes a gastos (compras escondidas, endividamento etc.) quanto a dinheiro sobrando (reservas financeiras e investimentos “ocultos”). A infidelidade financeira é algo sempre ruim (pois envolve uma “fissura” na confiança do casal) e, muitas vezes, acaba sendo precursora de outros tipos de infidelidade. Mas existem muitos casos em que a infidelidade financeira é “bem intencionada” (quando um dos cônjuges, sabendo que o parceiro ou parceira é completamente “porra louca” com dinheiro, faz uma reserva financeira escondida para o caso de alguma emergência). Porém, como diz aquele velho provérbio, “o caminho para o inferno é pavimentado com boas intenções” – mesmo quando a infidelidade é cometida com pureza de intenção, demonstra que há uma fraqueza na confiança mútua do casal. Mas vamos ver alguns sinais que indicam uma possível infidelidade financeira “em andamento”: 1-Encontrar extratos de contas e cartões que você não conhece Naturalmente, muitos casais optam por uma total separação de contas. Quando essa separação é total, explícita e consentida, não há o que falar. Porém, quando um casal gere as finanças de forma conjunta e essas “novidades” aparecem, fica bastante óbvio que um dos cônjuges está querendo conduzir operações financeiras com mais “privacidade”. 2-Preocupações súbitas com dinheiro Quando um dos cônjuges começa a demonstrar excessiva preocupação com dinheiro, sem motivo aparente (não houve uma perda de renda ou nenhum evento que envolva grande desembolso), isso é um sinal suspeito. Porém, é importante não confundir “paranoia” com o desejo de controlar, planejar e conhecer as contas. O fato de um cônjuge começar a analisar extratos bancários e procurar entender melhor os gastos é uma coisa positiva, e não negativa. A preocupação excessiva e o comportamento obsessivo é que indicam algo suspeito 3-Generosidade financeira “gratuita” Aqui um ponto difícil de “trabalhar”, pois cônjuges, de uma forma geral, adoram ganhar “mimos” e ficam felizes com arroubos de generosidade. Porém, quando não há uma origem financeira conhecida para aqueles recursos e o cônjuge “mão aberta” não dá nenhuma pista sobre a fonte dessa “riqueza repentina”, é o caso de se investigar um pouco melhor. O mesmo vale quando o cônjuge está sendo altamente...

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Perigos do “empreendedorismo por necessidade” em tempos de crise

Postado por em jan 31, 2017 em Artigos | 0 comentários

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 31/01/2017 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Olá, leitores do “Você e o Dinheiro”! Depois de um 2016 um pouquinho “irregular”, vamos para o primeiro post de 2017. E quero falar sobre um assunto que esteve bastante presente ao longo de 2016: desemprego. Ao longo do ano passado (e no começo deste ano), tenho observado duas coisas: Uma delas é um grande número de novos negócios abrindo (pelo menos na região em que eu moro). São negócios “menos sofisticados”, que poderíamos classificar como ”comércio de bairro”. Coisas como salões de beleza, academias de ginástica, lojas de bolos caseiros e coisas do gênero. A segunda é uma procura renovada por cursos de investimentos em renda variável, com foco especial naqueles que são voltados para a geração de renda. O pessoal que quer virar “trader” e transformar o próprio patrimônio em um negócio… Eu, como professor na bolsa de valores e “membro militante” da educação financeira, consigo ver claramente a transformação – até uns poucos anos, cursos voltados para o segmento de renda variável estavam “às moscas”. Agora, as turmas estão lotadas. Aumento na atividade empreendedora e no mercado de renda variável é “quase sempre” algo positivo, mas eu receio estar vendo algo que já vi no passado (ao menos no que diz respeito à criação de novos negócios com o perfil que descrevi): Dinheiro de indenização trabalhista entrando no mercado… O desemprego voltou com tudo e está, agora, pegando aqueles profissionais qualificados e com um histórico de estabilidade em seus empregos. Gente que ganha bons salários e que, ao perder o emprego, acaba saindo com uma “grana boa”, frequentemente na casa de centenas de milhares de reais. Aí surge a dúvida: “O que fazer com esse dinheiro?”. Muitas pessoas, ao sentirem que a recolocação profissional não será tão fácil (ou mesmo que ela será inviável, ao menos em condições similares ao “status” perdido), partem para o caminho do empreendedorismo. Mas não é um empreendedorismo planejado e movido por uma legítima vontade de empreender (e um gosto pelo risco), e sim uma tentativa de “comprar um emprego”. No caso das pessoas que buscam o caminho do mercado financeiro, eu mencionei, num programa recente, a questão do “grupo de risco” que se aventura nas operações de curto prazo em bolsa de valores (explorarei este assunto em breve aqui no blog). Se o padrão estiver consistente com aquilo que já vi no passado, a má notícia é que grande parte dessas iniciativas vai naufragar, e muitos patrimônios, que levaram anos (ou décadas) para serem construídos, se perderão. Momentos de crise (que envolvem perda de renda) acabam levando pessoas...

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A “morte” da renda fixa? (Not so fast…)

Postado por em dez 13, 2016 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 13/12/2016 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Uma das características do ano de 2016, no que diz respeito a finanças e economia, foi a retomada (ainda que gradual e discreta) dos cortes na taxa Selic e a diminuição nas expectativas para a inflação futura. Para os empresários e para o público geral, usualmente a queda nos juros é uma boa notícia, mas, no nosso caso, essa queda vem acompanhada de um aumento da incerteza. A aversão ao risco deverá permanecer alta e vamos descobrindo que “dinheiro mais barato” não é sinônimo de “dinheiro mais acessível”. Para um investidor, particularmente o investidor em renda fixa, queda de juros é a matéria prima dos pesadelos, em especial para aqueles investidores com planos de longo prazo ou que usam os investimentos para geração de renda. Outra característica de 2016, no contexto dos investimentos, foi um “retorno à vida” da bolsa de valores. O mercado ficou animado, entre outras coisas, com desdobramentos na cena política, e muitas oportunidades surgiram, inclusive gerando ganhos expressivos. O que levou muitos investidores (especialmente aqueles que estão na “zona de conforto” da renda fixa) a se perguntarem “já é hora de mudar de estratégia e começar a migração para a renda variável”? A minha resposta para essa pergunta sempre acaba vindo cheia de vieses (é inevitável). Pelas circunstâncias de mercado, nos últimos anos tenho falado muito mais sobre renda fixa, mas minha “área de origem” é renda variável. Sou um entusiasta da renda variável e um crente no poder do mercado de capitais para desenvolver a economia. Mas, por mais que eu sinta uma vontade de dizer “vamos para a bolsa!”, eu quero lembrar algumas coisas sobre nossos juros. A primeira é que as projeções mais otimistas indicam que, ainda que estejamos em uma trajetória de queda, a taxa deverá se manter nos dois dígitos ao longo de 2017 (ou seja, permaneceremos naquele patamar em que, pelos padrões internacionais, os juros são considerados “indecentes”). A segunda é que as taxas reais projetadas (acima da inflação) não estão refletindo (ou pelo menos não nas mesmas proporções) essa queda. Ou seja, parece que ainda teremos boas oportunidades por algum tempo e os anúncios da “morte” da renda fixa estão sendo um pouco precipitados… Eu não acredito (ou, ao menos, não quero acreditar) que o Brasil vai continuar sendo o “paraíso da renda fixa” por muito tempo. Isso beneficia o investidor, mas prejudica o empresariado e a população em geral. Em algum momento, teremos que nos aproximar mais daquilo que se pratica (em termos de juros) no resto do mundo, pois temos taxas de juros, hoje,...

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Renda Fixa: o “risco do reinvestimento”

Postado por em nov 17, 2016 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 17/11/2016 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Conforme prometido em meu último artigo (Tesouro IPCA – Uma proteção (ainda que imperfeita) contra a inflação), vou falar um pouco sobre um risco da Renda Fixa que, estranhamente, é muito pouco comentado pelos especialistas e pela literatura de finanças no Brasil: o risco do reinvestimento. O risco do reinvestimento é, como o próprio nome sugere, o risco de não conseguir reinvestir o dinheiro, em condições iguais ou melhores que as atuais, na eventualidade de um evento de liquidação financeira de um título de renda fixa (resgate, vencimento, venda ou pagamento de juros). Ou seja, explicando de uma forma (eu espero) mais simples, é o risco de você investir num título que paga 14% ao ano e, quando o mesmo vencer, o mercado estar pagando apenas 6% ao ano (e você não conseguir manter os ganhos nos níveis que estava habituado). É um risco que pode afetar qualquer investimento de Renda Fixa, mas afeta, em particular, títulos prefixados e títulos indexados à inflação (que têm uma parcela prefixada). O risco do reinvestimento é particularmente preocupante para aqueles investidores com horizonte de extremo longo prazo (décadas à frente – caso daqueles que estão construindo um patrimônio para a aposentadoria), que fazem planos considerando uma determinada realidade de juros e podem, “no meio do caminho”, encontrar um mercado com juros muito menores, que inviabilizam a estratégia planejada. O risco do reinvestimento é muito comentado na literatura americana de finanças, pois lá, muitos dos títulos de renda fixa privados (os “corporate bonds”, equivalentes às nossas debêntures) podem ser liquidados antecipadamente por iniciativa do emissor. Essa liquidação antecipada (chamada call, no jargão, e os títulos que permitem isso são chamados de callable) ocorre porque, num evento de queda dos juros no mercado, as empresas que emitiram esses títulos querem recomprá-los para poder emitir novos títulos a juros menores. Esse tipo de operação não representa, em princípio, nenhuma perda para o investidor (pois ele recebe o seu valor de volta, com o rendimento proporcional até o momento do call), mas atrapalha (e muito) a vida daquele investidor que fez um plano de longo prazo contando que iria receber aquela taxa de juros. Nos EUA, inclusive, os títulos callables costumam ter uma taxa de juros superior a títulos equivalentes non-callables, exatamente para compensar esse risco. Aqui no Brasil, o risco do reinvestimento começa a chamar a atenção num momento como o atual, em que se acredita que os juros deverão ser reduzidos, ainda que de forma lenta e gradual. Muitos investidores, acostumados aos altíssimos retornos que temos aqui, já começam a se preocupar...

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Tesouro IPCA – Uma proteção (ainda que imperfeita) contra a inflação

Postado por em nov 10, 2016 em Artigos |

Artigo publicado no blog “Você e o Dinheiro” do Portal EXAME em 10/11/2016 Por: André Massaro Link para o artigo original aqui. Há alguns dias, um conhecido me perguntou sobre a possibilidade de um Tesouro IPCA (título público indexado à inflação) dar rentabilidade real negativa. A questão não é, exatamente, uma novidade entre os conhecedores desse tipo de título (aliás, não só do Tesouro IPCA, mas também de títulos privados indexados à inflação). Mas, por alguma razão, o assunto vem atraindo a atenção dos pequenos investidores e até mesmo sendo explorado em alguns outros canais de comunicação. Mas, enfim, uma coisa que é preciso deixar clara sobre os títulos indexados à inflação é que eles não necessariamente pagam uma “taxa real”. Isso não está escrito em nenhum lugar da documentação técnica desses títulos. Inclusive, eles são considerados “pós-fixados” exatamente pela existência do indexador de inflação, já que a outra parcela é prefixada. Essa “correção pela inflação” é parte do rendimento e, assim sendo, sofre tributação de Imposto de Renda. Para fins formais, o rendimento é tratado como uma coisa só – não existe essa coisa de “rendimento real” e “rendimento não-real”… Por conta disso, um título como esse jamais dará uma “proteção perfeita” contra a inflação, pois uma parte dessa correção monetária é “comida” na forma de imposto. Dependendo de quanto estiver a inflação, o imposto pode, inclusive, ficar maior do que a parcela prefixada da remuneração, o que faria o título dar um retorno real (acima da inflação) negativo. Considerando as atuais taxas do Tesouro IPCA, uma inflação na casa de 30% ao ano já causaria esse efeito. Vejo alguns investidores falando que isso é uma espécie de “pegadinha” do Tesouro IPCA, mas não é pegadinha nenhuma, pois, conforme foi comentado, em nenhum documento oficial se fala que esse título dá um “retorno real” – Isso é uma pressuposição de investidores e de alguns especialistas/orientadores financeiros. A única forma de se conseguir uma proteção “perfeita” contra a inflação, investindo em renda fixa, é através de títulos indexados à inflação que não pagam Imposto de Renda, como as LCIs/LCAs e as debêntures de infraestrutura. Por serem isentas de impostos, a inflação pode ir “às alturas” que isso não vai prejudicar o retorno real. O ponto é que esses títulos privados, a despeito de protegerem melhor contra a inflação, têm outros problemas. LCIs/LCAs não têm o mesmo nível de segurança de um título público (é a garantia do FGC contra o aval do Tesouro Nacional). Debêntures são ainda menos seguras e costumam ter uma liquidez sofrível (ou mesmo inexistente). Tem ainda o fato de que seus prazos são significativamente mais curtos que alguns “Tesouro IPCA”, por isso, não dão ao...

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