25/05/2020 • • por Andre Massaro

Como ser um bom professor


O problema de alguém escrever um artigo com o título “como ser um bom professor” é que ele parte da pressuposição que o autor (no caso, euzinho aqui…) é, ele próprio, um bom professor… Como ser humano que sou, eu estou sujeito a toda sorte de vieses cognitivos e tendo a achar que eu sou muito mais competente, inteligente, espirituoso e comunicativo do que eu realmente sou.

Então, para me assegurar de que não estou embarcando numa “egotrip” maluca (afinal, a internet proporcionou a oportunidade de todo mundo atribuir, a si próprio, uma “voz de autoridade”), vou assumir que eu tenho uma certa autoridade no assunto baseado no fato de que todas as minhas avaliações como professor ficaram acima do 95º percentil (será que os alunos mentiram para me agradar?).

E também vou fazer o disclaimer de que minha experiência como professor é limitada. Apesar de ter muitas “horas de voo”, minha atuação sempre foi limitada ao público adulto e a cursos livres ou de pós-graduação.

Mas, ainda assim, acho que posso contribuir em alguma coisa com os colegas que estão militando, por exemplo, na graduação.

E um outro disclaimer é que, neste artigo, vou tratar apenas de atitudes e comportamentos. Não falarei (no máximo, falarei superficialmente) sobre técnicas e metodologias de ensino.

Como ter uma boa didática

Eu sou um cara burro (assumido). E eu credito grande parte do meu sucesso como professor ao fato de ser burro.

Por ser um cara burro, eu sou obrigado a “explicar para mim mesmo” aquilo que eu vou ensinar. Isso me faz ter uma boa didática (pelo menos, é o que meus alunos dizem). Pois, se eu consigo explicar algo complexo para um cara burro como eu mesmo, consigo explicar para qualquer pessoa.

Eu sou um leitor de longa data do blog do canadense Scott H. Young, que se especializou em técnicas de aprendizagem, e foi lá que eu ouvi falar, há muitos anos, da “Técnica Feynman”.

A técnica, que consiste em “explicar para si mesmo” tudo aquilo que você estuda, tem esse nome por causa do físico Richard Feynman (Prêmio Nobel de Física de 1965). Quando li a respeito, descobri que usava, eu mesmo, essa técnica há muito tempo (sem saber que alguém já tinha “batizado” ela… e nem foi o próprio Richard Feynman quem fez isso!).

Ela reforça aquela visão de que “quem ensina, aprende melhor”. Se “explicar para si próprio” é uma excelente forma de consolidar o seu conhecimento, explicar para os outros (que vão te dar feedback, fazer perguntas e te desafiar) vai consolidar ainda mais.
Então, acredite: Quem é burro ensina melhor (pois tem que ensinar a si próprio). E (ironia suprema…), quem ensina, acaba ficando menos burro (pois o conhecimento se torna mais consistente).

O que nos leva ao segundo ponto…

Seja grato pela oportunidade de ensinar

Sabemos que as condições de trabalho de um professor variam bastante. Em algumas escolas mais elitizadas, um professor pode ser valorizado e ter um status muito elevado.

Porém, em grande parte das escolas, o professor ganha pouco, trabalha muito e é tratado como lixo. Em algumas escolas, o professor é tratado como se fosse uma espécie de garçom, que está lá para “servir” o aluno naquilo que ele quiser. Como dizem alguns professores colegas meus, certas escolas “não têm alunos; tem clientes”.

O cenário atual do ensino não é nem um pouco propício à gratidão. Pelo contrário, o ressentimento e a frustração são emoções dominantes em muitos professores.

Mas, tentando ver algo positivo em meio a tanta negatividade, lembre-se de que ensinar acaba sendo uma oportunidade de VOCÊ aprender mais. Aprender mais sobre o seu tema, sobre seus métodos de ensino, sobre sua capacidade de se comunicar, de argumentar e de se defender de ataques (quando eles acontecem).

Agradeça (em silencio, apenas para si próprio – não precisa manifestar isso abertamente) pela oportunidade de se aprimorar e de desenvolver conhecimentos e habilidades que têm valor (acredite) FORA ambiente escolar… Na sua vida!

Lembre-se que você é um professor, e não um entertainer

O uso do humor e da linguagem leve em aulas é uma coisa que, na maioria das vezes, é positiva e ajuda na aprendizagem e retenção (digo “na maioria das vezes” pois existem ocasiões e temas que exigem uma postura mais sóbria).

Porém, saiba a diferença entre ser uma pessoa engraçada e um sujeito “engraçadinho”. Conte muitas histórias engraçadas (dentro do contexto daquilo que você está ensinando), mas não conte piadas. É muito fácil “errar a mão” quando se conta piadas.

Não seja palhaço, você não está lá para “entreter” seus alunos. Ensinar as coisas de forma divertida é diferente de, simplesmente, “divertir” as pessoas. Lembre-se de seus objetivos de ensino e lembre-se que nem todos os alunos gostam do excesso de informalidade.

Respeite os espaços individuais. Não force a barra. Não seja um adulto infantilizado, um “tiozinho” se comportando como um menino. Não importa o quão à vontade você se sinta no ambiente de ensino, você não é (e nem deve ser) “brother” dos seus alunos.

Tenha respeito pelo seu papel e por sua posição. Tenha também respeito pelos alunos e pela instituição. Eles esperam algo de você: entregue.

Saiba a diferença entre “simplicidade” e “simplismo”

Tem uma frase de Albert Einstein que diz “Tudo deveria se tornar o mais simples possível, mas não simplificado”. Eu não gosto da tradução dessa frase, então vou colocar em Inglês: Everything should be made as simple as possible, but not simpler.

O sentido original dessa frase (que a tradução não capta) é que você pode simplificar as coisas apenas até certo ponto. A partir desse ponto, você cai no chamado “simplismo”. O simplismo é associado com uma outra expressão em Inglês: Dumbing down.

Dumbing down é algo difícil de traduzir em poucas palavras, mas seria algo como “simplificar ao extremo conceitos complexos, ao ponto de distorcê-los, de tal forma que eles possam ser compreendidos por completos idiotas”.

Bem… Já viu que é uma coisa feia, né? Então, a lição aqui é “não trate seus alunos como idiotas” (ainda que alguns, de fato, sejam idiotas…).

Existe um limite para a simplificação e alguns temas não podem ser ensinados se não houver uma base previamente instalada. Um exemplo clássico é a Matemática – é uma área do conhecimento que não admite “atalhos”. Não dá para entender cálculo sem saber álgebra; não dá para saber álgebra sem saber aritmética.

Às vezes, o aluno simplesmente não está preparado para aquilo, e é preciso dar um passo para trás.

Na minha área de especialidade (finanças) isso é muito evidente. É perda de tempo tentar ensinar certas coisas para pessoas que ainda não compreendem o básico. É frustrante para quem ensina e, para quem está aprendendo, é ainda pior.

O aluno percebe que o professor está fazendo um grande esforço em explicar de forma “simples” e, ainda assim, não consegue absorver. O aluno se sente um idiota por não conseguir aprender e aquela “simplificação” toda (que deveria ajudar) acaba virando um verdadeiro “destruidor de autoestima”.

Então, não force a barra. Reconheça que a simplificação tem limites.

Respeite a inteligência de seus alunos

Em linha com o tópico anterior (que fala sobre simplismo e simplificação excessiva), preste atenção à linguagem utilizada com seus alunos, ESPECIALMENTE quando se tratarem de adultos.

No esforço de tentar simplificar coisas complexas, alguns professores acabam adotando um linguajar que infantiliza as pessoas. Ao menos conforme a minha experiência, adultos ODEIAM ser tratados como crianças. O mesmo vale para exemplos bobos e infantis que acabam insultando a inteligência das pessoas (“Joãozinho levou Mariazinha para passear…”). Comunique-se com adultos falando como um adulto.

Trate seus alunos com respeito. No caso de adultos, lembre-se que alguns alunos podem ser mais velhos que você e eles podem não se sentir muito à vontade com aquela situação.

Por isso, aja com respeito e não trate seus alunos como se fossem retardados.

Respeite o TEMPO de seus alunos

Quando comecei a dar aulas na bolsa de valores (o então “Instituto Educacional BM&FBOVESPA), a principal instrução que eu recebi (e que mais me marcou) é RESPEITE O TEMPO.

A recomendação era mais ou menos a seguinte: “Você tem quatro horas para dar esta aula. Você pode fazer o que quiser, do jeito que quiser, usando o método que preferir… Mas, seja lá o que fizer, FAÇA EM QUATRO HORAS”.

A argumentação por trás disso era bastante simples e lógica: Se eu levar MENOS tempo, o aluno se sentirá “roubado” (afinal, ele pagou por aquele conteúdo). Se eu levar MAIS tempo, não só passo a imagem de desorganização (não só minha, mas também da instituição de ensino) como, no caso da bolsa, eu crio uma situação ainda pior, de natureza “logística”.

As aulas, na bolsa, eram presenciais e, usualmente, à noite. A bolsa fica no centro de São Paulo, uma região que não é conhecida por ser “super segura e civilizada”, espacialmente após as 23h. Por isso, avançar no horário programado, nessas circunstâncias, é algo que pode, entre outras coisas, colocar os alunos em situação de risco.

Então, faça o que deve ser feito no tempo que lhe é dado. Se o tempo não está compatível com o conteúdo (seja para mais ou para menos), converse com os responsáveis pelo curso que estiver ministrando e ajuste o que for necessário.

Se você levar menos tempo que o programado, o aluno ficará com a impressão de que “faltou algo” (ou que aquele tempo adicional poderia ser usado em outra coisa). Se você levar mais tempo, pode causar diversos distúrbios no ritmo do curso, além de criar uma impressão geral de desorganização.

E atenção, também, aos períodos de intervalo (como pausas para café, lanches etc.). lembre-se que a SOCIALIZAÇÃO entre os alunos é importante na experiência de aprendizado. Então, não sacrifique esses momentos (pelo contrário, incentive-os).

Uma observação pessoal sobre posicionamento

Para encerrar este artigo, quero falar sobre algo que eu mesmo faço, com relação a posicionamento pessoal e profissional.

Quando eu dou aula em uma instituição de ensino, eu procuro seguir exatamente o que escrevi aqui (frequentemente eu cometo deslizes, mas eu tenho esses tópicos como guidelines). Nesta situação, eu preciso atender às expectativas de dois “agentes”: Um é o aluno e o outro é a própria instituição.

As instituições têm uma imagem e uma certa identidade que deve ser respeitada e, quando eu dou aula em uma instituição, eu acabo falando EM NOME dela (é assim que o aluno percebe). Se eu falo algum absurdo ou me comporto de forma inapropriada, o aluno não diz “o André Massaro fez aquilo” (às vezes ele sequer sabe meu nome). Ele vai dizer “o professor do curso ‘tal’ da Universidade ‘tal’ fez aquilo”.

Então, quando há uma instituição envolvida, eu preciso dar atenção às formalidades e à posição. Como foi dito ao longo do artigo, eu não sou “mano” dos alunos; não sou (e não devo ser) um “igual”.

Já quando eu faço cursos e treinamentos como uma iniciativa independente (é o caso dos meus cursos online), o posicionamento é completamente diferente, pois o único agente que eu preciso atender é o aluno.

Fora que, num curso meu (que não vai dar um diploma de uma instituição reconhecida) eu sei que a pessoa está ali de sua própria iniciativa e pagou por aquilo. É diferente de uma faculdade, que você nunca sabe se o cara está ali porque “o pai mandou” ou porque “o empregador obrigou”.

Por isso, nos meus cursos, eu parto do princípio de que estou lidando, de fato, com “iguais”. Não há o posicionamento típico de “autoridade” que o ensino formal exige. Tanto que eu sequer chamo os alunos de “alunos”. Me refiro a eles como “participantes” e eu sou, no máximo, um facilitador (na verdade, eu prefiro “instrutor”).

Mas isso acontece porque o ambiente (virtual, no caso, e sem “intermediários”) permite isso. Em outros ambientes e circunstâncias, é preciso seguir um certo protocolo.

Por mais que o ensino tente se modernizar, a figura do “professor” existe e deve ser valorizada e respeitada. Inclusive pelos próprios professores.

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