22/12/2019 • • por Andre Massaro

O que é um “gap” na bolsa


No dia 25 de janeiro de 2019 (uma 6ª feira) aconteceu a infame tragédia de Brumadinho, onde uma barragem da Vale se rompeu, causando mortes e destruição.

Neste dia, era feriado em São Paulo (dia da fundação da cidade) e a bolsa de valores estava fechada. O próximo pregão só iria acontecer na 2ª feira seguinte, dia 28 de janeiro.

Na abertura dos negócios em 28 de janeiro, as ações ordinárias da Vale (VALE3) começaram o dia “sangrando”, com uma desvalorização de quase 20% já na abertura dos negócios.

Na imagem abaixo, é possível ver o “buraco” que ocorreu nos preços.

Esse “pulo” é aquilo que, no jargão da bolsa, se chama de gap (que é, em tradução literal, um “fosso” ou “lacuna”).

Um gap é quando ocorre uma descontinuidade nos preços de um ativo financeiro e ele dá um “salto”, para cima ou para baixo. Neste caso da Vale, o que ocorreu foi um gap de grandes proporções (e com razão…) para baixo.

Por que os gaps na bolsa acontecem

Os gaps são, usualmente, o reflexo de eventos que acontecem quando os mercados estão fechados. O caso de Brumadinho é emblemático, pois aconteceu em um feriado em que a bolsa estava fechada.

Esses eventos causam grande ansiedade nos investidores e traders que, conforme a natureza do evento, querem comprar ou vender aquelas ações “a qualquer preço”. Assim, os preços dão um “pulo” e abrem um intervalo em relação ao preço de fechamento do dia anterior.

É raro os preços de uma ação abrirem rigorosamente no mesmo preço que fecharam no dia anterior. Geralmente há uma pequena diferença. Mas quando essa diferença é grande (vamos dizer, algo acima de 1% – não há uma regra aqui), se diz que foi um gap.

Por que os gaps na bolsa são importantes

Para quem opera em prazos curtos (como swing trading) ou com grande alavancagem, um gap pode ser aquela coisa que “te enche de dinheiro” ou que “te quebra” (dependendo se esse gap acontece a seu favor ou contra você).

Uma outra coisa importante (e preocupante) dos gaps é que, como nesse “espaço” não ocorreram negociações, as ordens stop loss que têm seus disparos nesse intervalo não são acionadas.

Saiba mais sobre stop loss lendo este artigo: “Como funciona a ordem ‘stop loss’

Isso gera um problema do ponto de vista de gestão de riscos, pois uma perda teoricamente limitada por um stop loss pode ficar fora de controle.

No caso do stop loss, é comum colocar o preço de execução distante do preço de disparo (para “garantir” a execução em caso de gap). Mas e quando são gaps “gigantes” como foi o da Vale com Brumadinho? São cenários extremos, mas que o investidor (ou trader) precisa considerar.

Gaps na bolsa e day trading

Inclusive, um dos argumentos que a turma do day trading usa para defender suas operações é, exatamente, o fato deles não estarem expostos aos gaps. Afinal, eles encerram todas as operações no mesmo dia e nunca “dormem posicionados” (como se diz no jargão). Com isso, eventos adversos que ocorram entre os pregões não têm impacto para eles.

E, vendo por este lado, eles estão certos e podemos dizer que o day trading é, ao menos conceitualmente, uma forma mais segura de se operar especulativamente (apesar de inúmeros estudos mostrando que o day trading não é uma coisa viável por outras razões – mas isso está fora do escopo deste artigo).

Para saber mais, confirma este vídeo no canal TopMoney: “Ser day trader ou um astro de Hollywood?

A existência dos gaps acaba levando, inclusive, muita gente a se interessar por mercados onde as negociações ocorrem de forma contínua, sem interrupções (ou com interrupções limitadas). É o caso dos mercados futuros americanos (que fecham apenas alguns minutos por dia, nos dias úteis) e do mercado Forex (que funciona continuamente nos dias úteis, 24 horas por dia).

Nos finais de semana não tem jeito… Quem não quiser “tomar susto” na 2ª feira, melhor desfazer todas as posições antes do final de semana.

Os tipos de gaps na bolsa

Os adeptos da Análise Técnica costumam classificar os gaps em 4 categorias:

Gaps comuns (ou gaps de área):

Geralmente acontecem quando os preços estão em congestão (ou “de lado”). Não costumam ser muito grandes e, em geral, são “fechados” rapidamente.

Gaps de fuga (em Inglês “breakaway gaps”)

Ocorrem quando os preços se movem com força excepcional e grande volume para fora de uma região de congestão. Esses gaps costumam ser o prenúncio de um movimento de tendência.

Os gaps de fuga podem demorar para serem fechados… Ou isso pode, simplesmente, nunca acontecer.

Gaps de continuação (em Inglês “runaway gaps”):

Às vezes também chamados de “gaps de medida”. Ocorrem quando os preços já estão se desenvolvendo em uma tendência definida, mas, por alguma razão, esse movimento ganha um impulso adicional.

Gaps de exaustão:

Surgem no final de movimentos de tendência (para cima ou para baixo) e, usualmente, sinalizam uma reversão “com força” dessa tendência.

Gaps intradiários

Como foi comentado antes, os gaps costumam ser gestados enquanto os mercados estão fechados. Mas, em circunstâncias excepcionais, os gaps podem surgir durante a negociação normal de um ativo. Esses gaps intradiários podem acontecer no caso de eventos de alto impacto durante o período de negociação. Também podem ocorrer durante a negociação normal de ativos de baixa liquidez, onde os preços se movem “aos pulos”.

Se a tragédia de Brumadinho tivesse ocorrido durante o pregão, pela magnitude do evento, provavelmente causaria um gap intradiário.

Conclusão

Os gaps podem ser um sonho ou um pesadelo, dependendo de que lado se está na operação.

Os eventos que causam gaps são, como via de regra, aleatórios e fora do controle de qualquer análise. Então, viram um elemento de imprevisibilidade e podemos creditar os efeitos dos gaps, na maioria das vezes, a uma mera questão de sorte ou azar. Por isso, querer “operar gaps” é algo temeroso.

De qualquer forma, os gaps são uma anomalia de mercado, um efeito de uma “má formação de preços” que não aconteceria (ou pelo menos não aconteceria com frequência) se os mercados operassem de forma contínua.

Mas o fato é que eles existem… E temos que conviver com eles e considerar seus efeitos em nossas estratégia e nossas práticas de gestão de riscos.

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