22/07/2020 • , • por Andre Massaro

Lifestyle business: Os “negócios de estilo de vida”


Lifestyle business é uma definição de modelo de negócios que se tornou popular, nos últimos anos, e que não tem uma tradução exata para o Português. Os conteúdos que tentam explicar esse conceito geralmente mantêm a grafia em sua forma original, que poderia ser traduzida, de forma genérica, como “negócio de estilo de vida”.

O nome pode ser um pouco enganoso, pois, quando se fala em “estilo de vida”, o que vem à cabeça da maioria das pessoas é moda, comportamento, saúde, viagens…

Seriam exemplos de “negócios de estilo de vida” um spa, uma academia ou uma loja de roupas?

Eventualmente sim, mas, no contexto do empreendedorismo, lifestyle business não está associado a “setores” ou a alguma atividade específica, e sim a um “modelo estratégico” de gestão e de crescimento do negócio.

Quais os objetivos de uma empresa?

Perguntas ambíguas levam a respostas ambíguas…

A pergunta sobre os objetivos de uma empresa pode ter múltiplas respostas, conforme o contexto.

Num contexto de administração financeira, pode-se argumentar que o objetivo de uma empresa é “gerar valor para o sócio ou acionista”. Essa foi uma das minhas primeiras lições, logo nas primeiras páginas do clássico “tijolão” do Lawrence Gitman (que é o livro-texto de administração financeira em muitas escolas de administração)

“Gerar valor” também é um conceito extremamente vago e ambíguo, mas, no mundo da administração financeira, “valor” significa “valor financeiro”. Quando se fala em “gerar valor” para o acionista se está falando em valorização das ações, que é a consequência do crescimento do negócio.

Mas o que dizer, então, de uma empresa que tem, como objetivo, NÃO CRESCER?

Lifestyle business é contraintuitivo

Nesse contexto de administração mais profissionalizada, o lifestyle business é um conceito que pode soar estranho e contraintuitivo.

Isso porque o conceito de lifestyle business pode ser definido como “empresa feita, deliberadamente, para não crescer”.

Como é um lifestyle business “típico”

Um típico negócio de estilo de vida é aquele negócio que é criado por seu fundador (ou fundadores) e ele vai trabalhar, diretamente, no negócio.

A “forma” como o trabalho vai acontecer é mais importante, na definição do negócio, que seu potencial de crescimento.

Imagine, então, aquela clássica cena do executivo estressado, sedentário e engravatado, que tem um surto, joga tudo para o alto e diz “vou largar esta vida e vender coco na praia”!

Nesta decisão, a coisa MENOS importante de todas é o coco. A decisão não é baseada numa oportunidade ou num estudo de viabilidade que indica que o consumo de coco nas praias tende a crescer.

A motivação é… viver na praia vendendo cocos e, de preferência, sem ter muita encheção de saco.

Então, o “estilo de vida” não diz respeito ao segmento em que a empresa vai atuar (moda, saúde etc.), e sim ao estilo de vida do próprio empreendedor. O empreendedor deseja ter um certo estilo de vida (que pode ser viver na praia, ter horários flexíveis, trabalhar em casa etc.) e quer ter um negócio que o permita viver desse jeito – e só.

Não faz parte das aspirações de um empreendedor lifestyle típico ser o “maior vendedor de cocos do Brasil” e abrir o capital da sua empresa na bolsa de valores. Ele quer é viver na praia “daquele jeito” que ele imagina, e quer que seu negócio financie esse estilo de vida.

Se vai fazer isso vendendo coco, sorvetes ou cerveja, isso tem pouca (ou nenhuma) relevância.

Um lifestyle business é um bom investimento?

Se você está pensando em qualquer retorno que não seja o “estilo de vida” em si, a resposta curta e grossa é: Não, não é um bom investimento.

Isso porque um lifestyle business típico não é um negócio escalável e com potencial de crescimento. Isso significa que a existência daquele negócio depende, em maior ou menor grau, da presença e da supervisão direta do dono.

O negócio cresce pouco (ou nada) e tende a “desandar” se o empreendedor não estiver envolvido.

Experimente construir um hotelzinho charmoso nas montanhas, ou uma confeitaria com as receitas exclusivas de sua família, e largar na mão de gerentes e empregados para ver o que acontece…

A despeito disso, muita gente sonha em ter seu próprio lifestyle business. Não tanto pelo retorno financeiro, mas por um suposto retorno em realização pessoal e qualidade de vida.

Empresas são feitas para vender… ou não

Existe uma corrente do mundo dos negócios que diz que “empresas são para vender”. Segundo essa corrente, a empresa não é o “lugar onde você trabalha”, mas sim um item de seu patrimônio, como qualquer outro, que tem valor e que pode ser vendido.

Inclusive, uma boa parte das fortunas do mundo é feita com a venda de empresas. O empreendedor cria um negócio, cresce e acaba atraindo um comprador (muitas vezes uma empresa maior, do mesmo segmento).

Inclusive, um dos livros sobre empreendedorismo que eu mais gostei fala, exatamente, sobre como deixar sua empresa mais “vendável”. Se chama Built to Sell, de John Warrilow. O livro não foi traduzido para o Português (pelo menos não por enquanto) e o título, em tradução literal, seria “feitas para vender”.

O autor argumenta que os negócios com potencial de serem vendidos são aqueles escaláveis e que não dependam de uma pessoa em particular (o dono). São coisas óbvias. Mas o livro é, ainda assim, muito interessante e de leitura recomendada.

Então, por essa perspectiva, nós podemos definir um negócio de estilo de vida como um negócio que “não é vendável” ou que, pelo menos, não é tão atrativo para um potencial comprador.

O retorno financeiro de um lifestyle business está, então, muito mais associado à sua geração de renda (até mesmo para poder manter o estilo de vida desejado pelo empreendedor) do que ao seu potencial de valorização.

É um negócio que tende a “morrer” sem o dono por perto…

Exemplos concretos de negócios de estilo de vida

É possível existir negócios de estilo de vida no comércio e na indústria, como pequenas lojas de bairro ou fabricantes de itens muito especializados, geralmente “beirando o artesanal”.

Porém, a maioria dos negócios de estilo de vida está no segmento de serviços.

Aquele café charmoso, que não tem filiais e não pretende virar um “Starbucks da vida”, é um típico lifestyle business. Uma pousada (que não seja vinculada a nenhuma grande rede hoteleira), em algum local pitoresco e gerenciada por uma família é, igualmente, um lifestyle business.

Consultorias e negócios que vendem o conhecimento de alguém também são modelos com pouco potencial de escalabilidade, e que têm pouco valor se aquela pessoa, em particular, não estiver envolvida.

Vou dar um exemplo ainda mais concreto: Eu mesmo.

Meu negócio é escrever livros, fazer cursos, palestras e, ocasionalmente, consultorias. Há alguma escalabilidade no meu negócio (especialmente cursos online e livros), mas, de forma geral, tudo isso depende de mim mesmo (aliás, para registro, não há, e nunca haverá, neste site ou em meus livros, nem uma linha sequer que não tenha sido escrita pessoalmente por mim).

Eu jamais poderei vender a “André Massaro Corporation” para algum concorrente maior ou para algum grande fundo de investimentos, pois eu não consigo vender a mim mesmo. E, quando eu morrer, o negócio morre comigo.

O lado bom? Eu trabalho em casa, faço meus horários, não tenho muita encheção de saco e tenho uma vida confortável (porém não extravagante) do ponto de vista material.

O lado ruim? Bem, provavelmente eu nunca serei um bilionário ou o líder venerado de algum grande conglomerado empresarial. Talvez eu nunca seja uma pessoa “poderosa”, no sentido de poder influenciar os grandes acontecimentos do mundo.

Mas, enfim… Cada um tem suas ambições e seus objetivos.

Conclusão

Um lifestyle business é algo que, para ter sucesso, depende de um perfil peculiar de empreendedor.

Isso porque esse modelo, de certa forma, envolve uma “limitação deliberada do próprio crescimento”. É uma visão diametralmente oposta àquela “autoajuda oba-oba” que diz que “devemos sempre crescer, superar os próprios limites e atingir o máximo de nosso potencial”.

O empreendedor lifestyle é aquele que define o estilo de vida desejado, luta para chegar lá e, quando chega, diz “pronto, cheguei onde eu queria e daqui eu não avanço”.

Para aqueles que não se alinham com a visão do lifestyle business, esse tipo de empreendedor pode ser visto como alguém acomodado ou, mesmo, fracassado.

Porém, o empreendedor de sucesso do lifestyle business não se enxerga como uma pessoa limitada, acomodada ou fracassada – e sim como uma pessoa mais feliz e satisfeita com a própria vida.

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