19/01/2020 • • por Andre Massaro

O que é “lucro econômico”


Indo direto ao ponto: Lucro econômico não é a mesma coisa que lucro contábil ou financeiro.

Esta parece ser daquelas questões que só existem para “encher o saco” mesmo… Afinal, por que não arrumaram uma outra palavra para definir esse tal “lucro econômico” que, diferentemente do lucro contábil, NÃO é uma coisa intuitiva?

O pior de tudo é que esse conceito de lucro econômico, ocasionalmente, cai em provas e concursos. E isso gera uma confusão ainda maior.

Mas, enfim, a minha motivação para escrever este artigo veio de outro artigo meu (Afinal, o que é um “rentista”?) em que dúvidas (de leitores) surgiram por causa do conceito de “lucro econômico”. Isso porque “rentista” (ou “rentismo”, ou ainda rent seeking em Inglês) é um termo associado a esse conceito de lucro econômico. Fica difícil entender uma coisa sem entender a outra.

E vou tentar explicar o que é lucro econômico sem apelar para gráficos e fórmulas matemáticas (eu não sofro de “inveja da Física”) e numa linguagem que, espero, seja facilmente inteligível para não economistas.

A diferença entre lucro contábil e lucro econômico

O conceito de lucro contábil é extremamente simples e intuitivo. São as receitas menos as despesas e custos em determinado período. Falando de forma simplificada, se você compra muamba no Paraguai para vender em São Paulo, seu lucro vai ser aquilo que você vendeu, menos o quanto pagou pelos produtos e as despesas que teve no caminho (passagem de ônibus, alimentação etc.). É a “grana que sobra no seu bolso”.

Já o conceito de lucro econômico considera um outro fator, que é o “custo de oportunidade”.

Custo de oportunidade é, em linguagem para leigos, o quanto você poderia estar ganhando a mais se alocasse seu recurso em outra oportunidade. Imagine nosso amigo muambeiro do exemplo anterior. Talvez ele obtivesse mais lucro se empregasse o dinheiro e o tempo gastos em sua excursão no Paraguai em alguma outra atividade. Custo de oportunidade é aquilo que se deixa de ganhar quando você tem a oportunidade de fazer algo melhor, mas não faz…

Então, o lucro econômico é o lucro contábil menos o custo de oportunidade.

De forma decomposta, seria: Receitas (-) Custos (-) Despesas (-) Custo de oportunidade.

O lucro econômico e os mercados competitivos

Em mercados competitivos (com vários fornecedores e poucas barreiras de entrada), o lucro econômico tende a zero.

E aqui que as coisas costumam “dar um nó” na cabeça de quem não estudou economia. Quando se fala em “lucro zero”, a maioria das pessoas associa (pelo conceito contábil) que o empresário não está ganhando nada e que, eventualmente, está pagando para trabalhar.

Porém, em economia, considera-se um lucro econômico zero como um “lucro normal” (inclusive, se usa a expressão “lucro normal” em Economia com essa finalidade). O lucro normal seria (se é que se pode dizer assim) um “lucro justo”, que remunera o capital, o trabalho e o empresário de forma “adequada”.

Talvez você agora esteja pensando “tá, mas o que define uma ‘remuneração adequada’?”. E aqui vem uma das grandes esquisitices da Economia… a “mão invisível”.

Em Economia, se usa a metáfora da “mão invisível do mercado” para falar sobre as forças de oferta e demanda que fazem os preços se equilibrarem. Em um mercado competitivo, os preços atuam como um “sinalizador” dessa dinâmica entre oferta e demanda.

Se os preços sobem muito, isso é um sinal de que a demanda está prevalecendo. Assumindo que o mercado seja competitivo, os fornecedores atuais vão aumentar sua produção, novas empresas vão entrar nesse mercado e o equilíbrio vai se restabelecer.

Se os preços caem, acontece o contrário. Preços caindo são, usualmente, um sinal de que a oferta está maior que a demanda. Em casos assim, as empresas têm um incentivo para produzir menos ou, mesmo, para saírem daquele mercado. Isso por que o CUSTO DE OPORTUNIDADE ficou alto demais. Para uma empresa, nessa situação, faz mais sentido “botar a bola debaixo do braço e jogar em outro campinho”…

Então veja como é a dinâmica: Se o custo de oportunidade é BAIXO, novas empresas quererão entrar naquele mercado (pois há oportunidade de obter lucro econômico). Se o mercado for competitivo (sem barreiras de entrada) essas empresas entrarão ofertando seus produtos e essa demanda “represada” vai desaparecer (levando o lucro econômico junto).

Se o custo de oportunidade é ALTO, aí temos o oposto, que é um “prejuízo econômico”. O incentivo passa a ser para as empresas saírem do mercado (e não entrarem). Quando isso acontece, o equilíbrio entre oferta e demanda se restabelece e o lucro econômico vai a zero.

Lucro econômico e lucro normal

O lucro econômico é, então, o lucro EM EXCESSO ao lucro normal. Assim como o prejuízo econômico é quando o lucro (normal ou econômico, no caso) é negativo. Então, observe que é possível uma empresa ter, ao mesmo tempo, lucro contábil e prejuízo econômico (neste caso, a empresa deveria considerar ir para algum outro mercado).

Em que circunstâncias o lucro econômico existe?

O lucro econômico pode existir, de forma permanente, em mercados não-competitivos. Ou pode existir TEMPORARIAMENTE em mercados competitivos.

Mercados não-competitivos são aqueles mercados onde as barreiras de entrada são altas demais ou, mesmo, intransponíveis. É o caso daqueles mercados que são monopólios ou oligopólios.

Um rentista (como foi explicado no artigo mencionado) é alguém que procura criar e explorar uma barreira de entrada para obter lucro econômico permanente. Um típico rentista é aquele sujeito que vai pedir para o Governo criar barreiras que dificultem ou impeçam o acesso de novos competidores. Entre essas barreiras estão reservas de mercado, obrigatoriedade de licenças emitidas em número limitado, privilégios para certas categorias e exigências absurdas para permitir a entrada de novos fornecedores.

Já em mercados COMPETITIVOS o lucro econômico existe, mas de forma temporária. Ele ocorre quando uma empresa causa uma “disrupção” no mercado, por conta de uma inovação tecnológica ou algo similar, e “pula na frente” dos demais concorrentes.

Quando isso acontece, a empresa tem um tempo para explorar essa inovação e lucrar enquanto o resto do mercado se “reorganiza” e tenta se colocar em pé de igualdade com aquele que saiu na frente. Durante esse período, a empresa vai ter um monopólio virtual e vai lucrar “horrores”.

Por isso, a melhor (e talvez a única) forma de obter lucro econômico em mercados competitivos é buscando a inovação. Cada vez que uma empresa desenvolve uma inovação relevante, ela causa um “alvoroço” no mercado que o tira do equilíbrio – e o mercado passa a ser não-competitivo naquele intervalo de tempo, até que o equilíbrio se restabeleça.

Uma empresa que busca constantemente a inovação (e consegue criar inovações relevantes) vai ter, ao longo de sua existência, várias oportunidades em que vai perturbar o equilíbrio de um mercado competitivo e obter o tão desejado lucro econômico.

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