31/12/2019 • • por Andre Massaro

Afinal, o que é um “rentista”?


Os anos de 2018 e 2019 foram marcados, para mim, pela ressurgência de uma palavra “das trevas”: Rentismo (sendo “rentista” aquele que pratica o rentismo). “Rentismo” é uma palavra que me remete àquelas aulas de economia na faculdade, em que eu não sabia muito bem se eu estava dormindo ou acordado. Porém, por alguma razão, a palavra voltou à moda e, mais interessante, voltou com um sentido diferente daquilo que se fala em economia.

A volta do rentista

As palavras “rentismo” e “rentista” voltaram a ser usadas, mas no sentido de definir a pessoa que vive das rendas geradas por seu patrimônio ou, numa visão ainda mais simplificada, é a pessoa que “não trabalha”. Então, nessa visão moderna de rentismo, o rentista é aquele cara que fica sentado no sofá, coçando o saco e assistindo Netflix enquanto seu patrimônio gera juros, dividendos ou aluguéis.

Provavelmente, não passa pela cabeça de quem aponta um dedo acusador que esse patrimônio (que hoje gera renda) foi construído por alguém que trabalhou – seja a própria pessoa que está desfrutando dele ou alguém de uma geração anterior.

Tem se usado muito a figura do rentista como elemento de suporte de discursos vitimistas na linha “eu tenho que dar duro enquanto tem gente só aproveitando a vida na beira da piscina”.

Só que rentismo não é isso…

Entendendo o que é lucro e renda

Em alguns aspectos, o mundo da Economia conflita com o mundo da Contabilidade e da Administração. Um desses pontos de conflito é o entendimento das palavras “renda” e “lucro”.

Do ponto de vista contábil (e de administração financeira), o entendimento de “lucro” é bastante direto e intuitivo: é receitas menos despesas. Porém, o conceito de lucro econômico leva em conta, também, o custo de oportunidade.

Então, evitando entrar nos pormenores obscuros da Economia, em um setor que exista competição perfeita (ou algo próximo disso), as empresas não conseguem obter lucro econômico. Elas, na melhor das hipóteses, “pagam as contas” (sendo que o lucro – contábil – dos sócios é uma das contas a serem pagas).

O conceito econômico de “renda” também é diferente do conceito contábil e financeiro. Em economia, a renda é a remuneração dos fatores de produção (terra, capital e trabalho).

Numa economia “eficiente” ou perfeitamente competitiva, não deveria ser possível obter renda além daquilo que remunera os fatores de produção – assim como não deveria ser possível obter lucro econômico.

Enfim, o que é rentismo?

É comum se referir ao rentista (inclusive aqui no Brasil) pela expressão em Inglês “rent-seeker” (buscador de rendas”, em tradução literal) e ao rentismo como rent-seeking.

Então, a gente pode dizer, de forma simplificada, que “rentismo” é receber rendas (no sentido econômico) acima daquilo que remunera os fatores de produção. Se você recebe alguma renda sem gerar (ou ter gerado) algum tipo de benefício econômico ou social, você é um rentista.

O rentista é, então, aquele cara que é “protegido” da competição (geralmente por alguma benesse do Governo). Uma pessoa ou empresa que está exposta à competição não consegue gerar (ou gera pouca) renda econômica adicional. Mas quando você está protegido da competição (por ter algum monopólio, subsídio ou reserva de mercado), você ganha mais do que aquilo que deveria ganhar em condições normais.

Por isso, o verdadeiro “rentista” não é o sujeito que tem um patrimônio e vive das rendas daquele patrimônio (apesar de que alguns podem ter acumulado esse patrimônio com a prática do rentismo).

Quem são, de fato, os rentistas

Os rentistas são pessoas ou empresas avessas à competição e que querem um “cercadinho para chamar de seu”.

São rentistas “de verdade”:

  • Empresas que vivem implorando por subsídios do Governo e benefícios fiscais (e geralmente conseguem…), alegando que os chineses, os marcianos ou seja lá quem for vão “destruir a indústria nacional”. Frequentemente esse tipo de rentista faz “chantagem” com o Governo, sinalizando com a ameaça de desemprego.
  • Categorias profissionais que pressionam o Governo por “regulamentação”. Em alguns casos, a regulamentação é necessária, pois a atividade pode apresentar riscos à segurança e à saúde das pessoas se for mal executada. Mas a maioria dos pedidos de “regulamentação” tem como objetivo real formar reserva de mercado e dificultar (ou mesmo impedir) a entrada de novos competidores.
  • Pessoas que exploram, sem realmente precisar, benefícios fiscais e incentivos dados pelo Governo a grupos e indivíduos que, por alguma razão, precisam (de verdade) de ajuda e benefícios.

Enfim, o rentismo (ou rent-seeking) não gera qualquer tipo de valor econômico. Ele apenas transfere riqueza daqueles que não têm privilégios para aqueles que têm.

Quando você é obrigado a comprar um produto de qualidade inferior, pagando mais caro do que deveria, porque o Governo quer “proteger” aquela empresa dos invasores marcianos, saiba que você está sendo vítima de um verdadeiro rentista (que, neste caso, é o empresário protegido que, se não contasse com uma “ajudinha” do Governo e tivesse que contar apenas com a própria competência, seria dizimado pelos concorrentes).

Quando você é obrigado a contratar um profissional qualquer (que não vai te fazer uma cirurgia cerebral ou algo que represente um risco real a você) e TEM que ser um profissional com registro no “Conselho-Sei-Lá-de-Quê”, pagando um valor mínimo que é definido pelo “Sindicato-Sei-Lá-de-Quê” (quando uma outra pessoa poderia fazer o mesmo trabalho mais barato e com qualidade igual ou superior), saiba que você está sendo vítima de um verdadeiro rentista.

Nos dois casos, você paga mais do que deveria e recebe menos do que deveria… ISSO é rentismo.

Então, por favor, deixem em paz aquelas pessoas que acumularam patrimônio e hoje vivem das rendas desse patrimônio. A grande maioria das pessoas que condena aqueles que não trabalham (e que têm a possibilidade de viver sem ter que trabalhar), na verdade, não condenam por um senso de injustiça, e sim por pura inveja e ressentimento.

Os verdadeiros rentistas são aqueles que estão “sugando” as pessoas com atividades inúteis e produtos e serviços de baixa qualidade, que ninguém pagaria se tivesse a opção de não pagar. São aqueles profissionais que prestam um serviço “lixo”, mas não podem ser tirados dali porque alguém está dando àquelas pessoas algum tipo de privilégio ou exclusividade.

E a ironia suprema é que uma boa parte daqueles que acusam as pessoas de serem rentistas (no sentido de viverem das rendas de seus patrimônios) são, elas próprias, rentistas no sentido “correto” da palavra – gente que só consegue sobreviver porque tem algum tipo de privilégio ou uma “teta governamental” para mamar.

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