17/06/2020 • • por Andre Massaro

O que é Free Float


Se você já se aprofundou um pouco nos pormenores das bolsas de valores, já deve ter se deparado coma expressão em Inglês “free foat” (que, em tradução livre, seria algo como “livre flutuação”). E se você já viu algo sobre os “níveis de governança corporativa” da B3, inevitavelmente já “trombou” com essa expressão.

E, quero avisar uma coisa importante: A maioria dos pequenos investidores que eu conheço NÃO tem um entendimento muito claro do que é free float.

A definição mais comum de free float

A maioria dos conteúdos educacionais sobre renda variável, e mesmo alguns documentos oficiais da bolsa, define free float como “ações em livre circulação”.

Só que essa definição pode dar margem a múltiplas interpretações. Se alguém te fala “livre circulação de ações”, o que te vem à cabeça?

Tecnicamente falando, se você comprou uma ação qualquer e está com ela há um ano, não vendeu e não tem intenção de vender, isso significa que ela NÃO ESTÁ em livre circulação, correto? Afinal, ela está com você e, supostamente, continuará com você por muito tempo.

Será que as ações em “livre circulação” são apenas aquelas que estão girando nas mãos dos day traders e swing traders. Que fazem operações de curto prazo?

Pois é, a definição “oficial” de free float acaba sendo um pouco vaga e confundindo investidores menos experientes.

Free float e as empresas de capital aberto

Para entender (corretamente) o free float, é preciso entender um pouco o funcionamento básico de uma empresa de capital aberto.

Uma empresa de capital aberto é uma empresa que tem ações negociadas em bolsas de valores (atenção ao detalhe: escrevi “bolsas de valores”, no plural…). Só que “ter ações negociadas em bolsas” não significa que TODAS as ações daquela empresa estão listadas em uma ou mais bolsas.

Quando uma empresa abre o capital, tipicamente, ela disponibiliza uma parte das ações ao público, via bolsas de valores. A outra parte (que, normalmente, é a maior parte) fica nas mãos de acionistas estratégicos, que são aqueles que detém posições expressivas na empresa e, de alguma forma, participam de sua gestão.

Essas ações dos acionistas estratégicos estão fora da custódia das bolsas de valores. Elas “existem” no Livro de Registro de Ações e em outros documentos societários de manutenção obrigatória.

Então, essas ações não “circulam” por uma razão bastante simples: Elas não estão listadas em nenhuma bolsa. Elas só podem ser transacionadas em negociações diretas entre as partes.

Se um acionista estratégico (que tem uma grande quantidade de ações não listadas) quer vender suas ações, tipicamente ele vende de forma direta a algum interessado ou, se preferir (ou não tiver outro caminho), pode oferecer essas ações na bolsa através de uma “oferta secundária” (que é quando se oferta, no mercado financeiro, títulos já existentes).

Leia aqui: O que são os mercados primário e secundário

Quando isso acontece (uma oferta secundária), a ação que não “existia” na bolsa (mas já existia na empresa) passa a ser listada em bolsa, e o público (todos os investidores das bolsas) pode ter acesso a ela.

O que são, então, ações em “livre circulação”?

As tais “ações em livre circulação” não são (pelo menos não apenas), simplesmente, ações que estão “circulando”. São todas as ações que estão listadas em alguma bolsa de valores ou mercado organizado (por isso eu tinha colocado no plural, anteriormente) e que PODEM ser (mas não necessariamente estão sendo) transacionadas nesses mercados.

Então, se você recebeu ações compradas há 50 anos, de herança de seu avô, e pretende deixar como herança para os seus netos (ou seja, não tem NENHUMA intenção de vendê-las); e, assumindo que essas ações estejam custodiadas em uma corretora ou distribuidora de valores, elas são parte do free float.

Então, talvez, uma definição mais precisa do free float seria aquelas ações que PODEM (se o acionista quiser) ser vendidas em bolsa, sem que elas precisem ser listadas previamente (pois já estão listadas – elas já “existem” para a bolsa). Mas não necessariamente essas ações estão “circulando”, no sentido comum da palavra.

Para que serve o free float?

A “aplicação” mais comum do conceito de free float é na construção de índices do mercado acionário. A maioria dos índices de ações do mundo (inclusive o nosso Índice Bovespa) considera, para dimensionar uma empresa, apenas as ações negociadas em bolsas e mercados organizados (que forma a chamada “capitalização de mercado”).

O free float é, também, uma métrica usada por alguns analistas na hora de avaliar empresas.

Supostamente, uma empresa com um maior free float (ou seja, com um grande percentual de suas ações podendo ser negociadas em bolsas) sofrerá menos com a volatilidade do preço de suas ações (por conta da maior liquidez).

Existe também uma questão de imagem pública. Uma empresa disponibilizar mais ações ao público funciona como uma forma de “sinalização”; um gesto que indica maior comprometimento com transparência e boas práticas de governança corporativa.

Free float no Brasil

No Brasil temos, pelo menos até o momento em que este texto está sendo composto, uma única bolsa (a B3).

Na B3, existem os chamados “níveis de governança corporativa”, que são segmentos de listagem para empresas que seguem práticas diferenciadas de governança corporativa, superiores àquilo que é, simplesmente, exigido pela legislação.

Nos principais segmentos de listagem diferenciados (que são o Nível 1, Nível 2 e o Novo Mercado), a exigência é que o free float mínimo seja de 25%.

Ou seja, 25% das ações precisam ser “negociáveis” em bolsa (mas não, necessariamente, estarem em livre circulação, no sentido estrito da palavra).

Como assumir o controle de uma empresa?

Um pequeno investidor (ou aspirante a investidor) pode pensar: “Se eu passar vida toda comprando ações de uma mesma empresa, posso acabar virando dono de 100% dela?”.

Ou, então, “e eu ganhar bilhões, posso virar dono de 100% de uma empresa comprando todas as ações na bolsa?”.

Pois é, não pode… Pois nem todas as ações podem ser compradas na bolsa (nem que você esteja disposto a pagar caro) e, tipicamente, uma empresa mantém a maior parte de suas ações fora das bolsas.

Você pode até comprar todas as ações que estão numa bolsa, virtualmente “secando” as negociações. Mas, para virar dono da empresa toda, você terá que conversar com os grandões no “andar de cima” e comprar essas ações não listadas (que formam o bloco de controle) de forma direta.

Conclusão

Para fins práticos, o free float acaba não fazendo grande diferença na vida de um pequeno investidor, e acaba sendo mais uma curiosidade, ou um elemento para melhor entendimento do mercado financeiro, do que uma ferramenta de análise “de fato”.

Porém, o free float tem uma interessante aplicação como “ferramenta de sinalização”. Um grande free float acaba sendo um indicativo de que a empresa “olha mais” para o investidor que está nas bolsas de valores.

O free float maior sugere uma empresa mais transparente e mais comprometida com os pequenos investidores e, como vimos, no caso do Brasil, um free float mínimo é um dos requisitos para ganhar o “selo de qualidade” de boas práticas de governança corporativa.

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