26/12/2019 • • por Andre Massaro

O que é arbitragem (em Economia e Finanças)


Começando com uma definição rápida: a arbitragem é uma espécie de feedback loop da economia e dos mercados. Quando os preços de um determinado ativo “surtam”, a arbitragem acontece e leva os preços desse ativo “surtado” a um novo ponto de equilíbrio.

O conceito de arbitragem não é muito simples e intuitivo para quem “não é do ramo”. Então, vamos explorar melhor.

Tentando explicar a arbitragem de forma mais “elaborada”

A Economia é um sistema complexo e dinâmico (até aqui, nenhuma novidade…). Esse sistema é formado de vários subsistemas, entre eles os mercados. Numa economia onde a informação flui livremente, os mercados “se comunicam” e tendem a ter um certo equilíbrio entre si. Porém, como em todo sistema complexo, existem ineficiências, fricções e delays (atrasos) que fazem com que esse equilíbrio nem sempre funcione como deveria.

Desta forma, o preço de um produto no mercado “A” (desconsiderados todos os custos logísticos, tributários etc.) tende a ser igual ao preço do mesmo produto no mercado “B”. Até porque, se as pessoas descobrem que o tal produto está mais barato no mercado “A” do que no “B”, elas vão passar a comprar no mercado “A”.

Pela lógica da lei da oferta e da procura, os preços no mercado “A” tendem a subir (por aumento de demanda) e no mercado “B” tendem a cair (por queda de demanda). Em algum momento, esses dois preços voltarão ao seu equilíbrio.

Para dar um exemplo um pouco mais tangível, imagine que o abacaxi está mais caro no Rio de Janeiro do que em São Paulo. Imagine agora que você faça as contas e, mesmo considerando todos os custos de transporte, armazenamento e o que mais for preciso, você consegue comprar abacaxis em São Paulo mais barato, vender no Rio mais caro e ter lucro. Basicamente, você fez uma arbitragem.

Arbitragem é quando um agente econômico qualquer (seja um empresário, um comerciante ou um trader de mercados financeiros) identifica uma distorção de preços em um mesmo produto em mercados diferentes (no nosso exemplo, o produto é “abacaxi” e os mercados são Rio e SP). E, ao identificar essa distorção, ele a EXPLORA comprando no mercado onde está mais barato e vendendo onde está mais caro.

O arbitrador (é o nome de quem faz arbitragem) aumenta a demanda no mercado onde está mais barato (pois ele assume a ponta compradora) e aumenta a oferta onde está mais caro (pois assume a ponta vendedora). Com isso, os preços tendem a se equilibrar entre os dois mercados.

Porém, como todo sistema complexo, o feedback loop que leva os preços ao equilíbrio tem um retardo (delay) e, até que esse equilíbrio seja totalmente restabelecido, o arbitrador consegue fazer um bom lucro.

A arbitragem nos mercados financeiros

Nos mercados financeiros, um mesmo ativo pode ser negociado em diferentes mercados. Por exemplo, uma commodity é um produto que não tem diferenciação. Ouro, por exemplo, é uma commodity, pois “ouro é ouro”. Não importa se veio do Brasil, da África do Sul… Assumindo que o ouro atenda a certas características de pureza, ele terá o mesmo valor independentemente de sua origem.

Assim sendo, se o preço do ouro negociado na Inglaterra se “descola” daquilo que está sendo praticado nos EUA, os arbitradores rapidamente entram em ação e trazem os preços de volta ao equilíbrio.

No caso de uma ação, às vezes acontece de uma mesma ação ser negociada em bolsas diferentes, e distorções de preços entre essas duas bolsas podem acontecer (ainda que por períodos muito curtos). Os arbitradores estão sempre “de olho” nessas oportunidades de comprar em um mercado e vender no outro.

Arbitragem entre ativos iguais ou similares

Nos mercados financeiros, é comum se fazer arbitragem entre ativos idênticos ou similares. Sobre “ativos idênticos” não há o que falar. São idênticos e “ponto final”. É como o já mencionado caso do ouro, de mesmo grau de pureza, negociado em Londres ou New York.

Porém, é possível fazer uma arbitragem entre ativos que não são idênticos, mas têm forte correlação. Isso é, inclusive, chamado de “arbitragem estatística”.

Imagine o ouro e a prata. São duas commodities metálicas e não são idênticas, mas há grande correlação positiva entre elas. Quando um sobe, o outro tende a subir também. Se um subiu e o outro não, os arbitradores “apostam” que um dos dois vai se movimentar em direção ao outro e essa correlação voltará aos seus níveis históricos.

Outros exemplos de ativos não idênticos, mas correlacionados, são ações de classes diferentes de uma mesma empresa (ordinárias e preferenciais); ações e títulos representativos de depósitos dessas ações em outro país (como, por exemplo, uma ação negociada no Brasil e seus ADRs negociados nos EUA) e por aí vai.

Arbitragem estatística

Como se pode imaginar, a arbitragem estatística acaba sendo mais comum que a arbitragem “pura” (entre ativos idênticos), pois as oportunidades de distorções são maiores e mais frequentes. Porém, no caso da arbitragem estatística, o que se busca não é, diretamente, uma distorção nos preços. O que se busca é uma distorção nas CORRELAÇÕES HISTÓRICAS. Se aquela correlação aumentar ou diminuir muito, o trader de arbitragem se “posiciona” nos dois ativos, na presunção de que aquela correlação voltará, mais cedo ou mais tarde, aos seus níveis históricos.

Os riscos da arbitragem

No caso da arbitragem “pura”, entre ativos idênticos, os riscos de mercado são praticamente nulos (por isso é um tipo de operação que muitos traders, especialmente os profissionais e institucionais, adoram fazer). O maior risco é o risco operacional.

O risco operacional é, no caso, o risco de não conseguir se executar uma das “pontas” da operação. Para entender melhor, vamos voltar ao nosso exemplo “tosco” dos abacaxis em São Paulo e no Rio de Janeiro. Assumindo que você consiga embarcar seus abacaxis em SP e levá-los ao Rio antes que essa distorção de preços se desfaça, o risco da sua operação é zero. Você só vai perder se alguma coisa acontecer no caminho (um acidente, ou seus abacaxis estragarem, forem roubados etc.).

Por isso que, para fazer operações de arbitragem, com sucesso, nos mercados financeiros, VELOCIDADE É FUNDAMENTAL. Nos mercados financeiros atuais, que são altamente informatizados, uma distorção pode durar frações de segundo. É muito difícil (em alguns casos impossível) conduzir operações de arbitragem “na mão”.

Já no caso da arbitragem estatística, os riscos são um pouco maiores. Como não se trata de ativos idênticos (e sim de ativos correlacionados), podem ocorrer mudanças estruturais no mercado que façam com que aquela correlação histórica “deixe de valer” e não volte mais aos níveis anteriores (ou demore muito mais tempo que o esperado para voltar). Nesse caso, o trader pode ter que cobrir suas posições com perdas.

No caso da arbitragem entre ativos idênticos, o risco é, essencialmente, operacional. Na arbitragem estatística, além do risco operacional, tem também o risco de mercado, pois os preços dos ativos podem se descolar “para sempre”.

Conclusão

Operações de arbitragem são muito populares no mercado financeiro. As duas principais razões dessa popularidade são:

Não-direcionalidade

Para o trader de arbitragem, não importa a direção do mercado (para cima ou para baixo). O que importa é que haja um descolamento de preços que seja “explorável”. As oportunidades de arbitragem podem surgir em qualquer cenário, com o mercado se movimentando em tendência ou não.

Baixos riscos

Como vimos, o risco pode ser virtualmente zero (exceto pelo risco operacional) em operações de arbitragem com ativos idênticos. Na arbitragem estatística existe o risco de mercado, mas alguns consideram que esse risco é menor e mais fácil de gerenciar do que em operações “comuns”, direcionais, com um único ativo.

Porém, é preciso deixar claro, especialmente para investidores e traders amadores, que “na teoria tudo é lindo”. Na prática, a identificação e execução das operações de arbitragem não é tão fácil quanto parece. A arbitragem de ativos idênticos se tornou algo “praticamente impossível” para os traders amadores, pois não dá para competir com o poder computacional das tesourarias de bancos e investidores institucionais.

No caso da arbitragem estatística, o cenário é um pouco mais favorável para os “pequenos”. Porém, é preciso bastante estudo (para entender as correlações) e ferramentas adequadas (como plataformas especializadas e “robôs” para execução de ordens) para conseguir identificar e explorar essas distorções.

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