27/06/2020 • • por Andre Massaro

O que é um argumento (raciocínio lógico)


Uma das habilidades mais importantes para executivos, empreendedores, investidores e para qualquer pessoa que precise tomar decisões é o pensamento crítico. Pensamento crítico é a aplicação da lógica informal para análise e avaliação de argumentos. Assim sendo, podemos dizer que o argumento é o principal “objeto de interesse” do pensamento crítico.

Antes de qualquer coisa, para que “serve” um argumento?

O objetivo principal de um argumento é “buscar a verdade”. Num mundo perfeito, os argumentos deveriam ser, todos eles, construídos com o objetivo de expor a verdade e de ajudar as pessoas a pensar melhor, de forma mais lógica e racional.

Porém, na vida prática, um argumento acaba tendo a função de convencer e de persuadir.
Argumentos bem construídos e comprometidos com a verdade são, naturalmente, persuasivos e convincentes. Mas algumas pessoas, por diversos motivos, de forma intencional ou não, podem construir argumentos ruins, não com o objetivo de determinar uma verdade, mas sim para tentar te persuadir ou te “vender alguma ideia”.

Argumentos construídos, deliberadamente, para convencer e persuadir, são exatamente aqueles com os quais a gente mais precisa ter cuidado. Afinal, essas tentativas de convencimento e persuasão são, muitas vezes, maliciosas e meticulosamente projetadas para nos manipular e para nos induzir a tomar decisões e atitudes que, em outras situações, a gente não tomaria.

Inclusive, o campo de conhecimento do pensamento crítico tem, como objeto de estudos, os argumentos – exatamente para evitar que não sejamos vítimas de argumentos falaciosos que nos levem a decisões erradas.

Diagrama em formato de mapa mental, mostrando o que é um argumento e suas diferentes classificações
Mapa mental – O que é um argumento
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A estrutura básica de um argumento

Um argumento é uma construção lógica resultante de dois tipos de declarações: Premissas e conclusões.

Todo argumento é formado por uma ou mais premissas (que são um tipo de declaração) e por UMA ÚNICA conclusão. As premissas são as declarações que tentam determinar o grau de veracidade da conclusão (que, por sua vez, é uma outra declaração).

Vamos, então, fazer um argumento bem “bobinho” para ver a estrutura: Se você colocar uma chaleira com água no fogo, ela vai ferver.

As premissas aí são as seguintes: O fogo é quente. A chaleira, ao ser exposta ao fogo, esquenta. O calor é transferido para a água. O calor faz as moléculas se “excitarem” e a água faz “blrblrblr”…

A conclusão: A água ferve.

O que são premissas

Uma premissa (também referida, neste contexto, como “pressuposição”) é uma declaração baseada na afirmação de algo que é “presumidamente verdadeiro”. É algo que é oferecido como evidência, ou prova de verdade, para dar suporte a uma conclusão.

Num argumento, nem sempre as premissas são explicitadas. Às vezes elas são, simplesmente, presumidas (daí elas serem chamadas, também, de “pressuposições”).

No meu argumento de exemplo (o da chaleira), eu não preciso dizer que “o fogo é quente” e explicar o comportamento das moléculas de água quando expostas ao calor. Eu parto do princípio de que isso é algo que a pessoa “já sabe” (ainda que de forma intuitiva).

O que é uma conclusão

A conclusão é o “produto final” do processo lógico, que tem as premissas como “matéria-prima”. É o “de quê se está falando”, dentro de uma argumentação.

Num argumento comum, nem sempre a conclusão é apresentada de forma explícita. Às vezes, ela pode estar oculta, de tal forma que somos “induzidos” a chegar na conclusão que o autor do argumento quer que cheguemos.

Como foi comentado anteriormente, um argumento pode ter várias premissas, mas apenas UMA conclusão. Porém, a conclusão de um argumento pode virar a premissa de outro argumento, gerando um processo de “encadeamento lógico”.

As conclusões formam crenças e pressuposições (que viram premissas de outros argumentos). E, baseados em conclusões, tomamos decisões, atitudes e fazemos previsões sobre o futuro.

Em uma declaração qualquer, a presença de uma conclusão (explícita ou não) é a “pista” de que se trata de um argumento. E, quando explícita, a conclusão costuma vir acompanhada de palavras de ligação como “então”, “assim”, “portanto” etc.

Os tipos de argumento

Existem dois tipos básicos de argumentos: Os argumentos dedutivos e os indutivos.

Argumentos dedutivos

Os argumentos dedutivos são aqueles nos quais a conclusão é uma “consequência lógica” das premissas. Eles partem da premissa em direção à conclusão.

O meu argumento da chaleira é um argumento dedutivo “clássico”. Se o fogo é quente, a chaleira transmite o calor e tem água dentro da chaleira… a água vai ferver!

Argumentos dedutivos podem ser classificados quanto à sua VALIDADE e quanto à sua SOLIDEZ.

Argumentos dedutivos válidos ou inválidos

A validade ou não de um argumento é algo que está no domínio da “lógica formal”.
Um argumento é válido quando a conclusão segue as premissas. Ou seja, ele “faz sentido”.

Um argumento é invalido quando a conclusão não tem nada a ver com as premissas. É aquilo que se chama, em Latim, de non sequitur (“não há sequência”).

Um non sequitur é dizer que o primeiro ministro do Japão renunciou porque eu coloquei minha chaleira no fogo. Não há conexão entre essas duas coisas – o argumento é inválido.

Argumentos dedutivos sólidos ou não sólidos

Se a validade ou invalidade de um argumento é determinada por sua “forma” (sua estrutura lógica), a solidez é determinada pela qualidade do conteúdo ou, mais especificamente, se as premissas são VERDADEIRAS e COMPLETAS.

Um argumento pode ser perfeitamente lógico (e, consequentemente, válido) e ser apoiado em premissas falsas.

Por exemplo: Eu posso argumentar que se eu pegar um barco e navegar até o fim do mundo, o barco vai cair de um penhasco rumo ao infinito.

Esse argumento faz todo sentido, se eu presumir que a Terra é plana (veja que a premissa não está explícita, mas é evidente que esse argumento deve ter saído da boca de um terraplanista). Só que a premissa (Terra plana) é errada (bem, pelo menos foi assim que eu aprendi…). Então, temos um argumento que é VÁLIDO, mas não é SÓLIDO.

Observe, então, que um argumento SÓLIDO sempre será VÁLIDO. Mas um argumento válido não é, necessariamente, sólido.

Em um argumento sólido, a conclusão será verdadeira se o argumento for VÁLIDO e se as premissas forem verdadeiras.

Argumentos indutivos

Se argumentos dedutivos são aqueles em que as conclusões são uma consequência lógica das premissas, os argumentos indutivos são aqueles em que a conclusão é uma consequência PROVÁVEL das premissas.

As premissas, nesse caso, são informações que temos disponíveis e, a partir delas, fazemos uma “extrapolação”.

Essas extrapolações podem ser generalizações, analogias, inferências causais ou inferências estatísticas.

Por exemplo, quando um avião (um avião de passageiros regular, não um teco-teco) decola de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro, temos uma razoável segurança de que esse avião chegará ao seu destino, pois, baseados em estatísticas e em muitos anos de dados históricos, sabemos que a probabilidade do avião cair é muito remota.

Meu argumento de que o avião chegará lá é baseado em probabilidade – mas “coisas ruins” sempre podem acontecer no meio do caminho.

Argumentos indutivos não devem ser tomados como verdades absolutas, mas sim como probabilidades. Os argumentos indutivos, quando não tratados de forma meramente probabilística, são sujeitos a “refutação imediata”, se ocorrer alguma observação em contrário.

É o famoso “problema da indução”, também conhecido como “Cisne Negro”.

Podemos argumentar que não existem extraterrestres (afinal, não temos nenhuma evidência de que eles existam). Mas se, amanhã, recebermos algum visitante do espaço, o argumento está, definitivamente, refutado.

O argumento de que não existem extraterrestres não é baseado em lógica, mas sim em “observação” (ou ausência de observação, neste caso…).

Praticamente todos os argumentos que fazem previsões e inferências sobre o futuro são indutivos.

Dizer que um aumento em seu gasto de marketing resultará em aumento de vendas é um argumento indutivo. Dizer que o dólar subirá se os juros caírem é, também, um argumento indutivo. São coisas muito prováveis de acontecer, mas não necessariamente elas acontecerão.

Um argumento indutivo pode ser classificado como FORTE ou FRACO, conforme a probabilidade de a conclusão ser verdadeira.

Um argumento pode ser falso?

Como vimos, neste artigo, um argumento pode ser classificado das seguintes formas:

  • Argumento dedutivo: Válido ou Inválido
  • Argumento dedutivo válido: Sólido ou não-Sólido
  • Argumento indutivo: Forte ou fraco

Observe que não se usa as palavras “verdadeiro” ou “falso” na classificação de argumentos. “Verdadeiro” e “falso” é, neste caso, uma propriedade das premissas e da conclusão.

No uso coloquial da linguagem, podemos acabar dizendo que determinado argumento é verdadeiro ou falso, mas não é “formalmente correto” qualificar argumentos dessa forma.

Uma outra forma de dizer que um argumento “não presta” é dizer que ele é falacioso. Uma falácia é uma “falha lógica” que compromete o argumento.

Argumentos inválidos, não-sólidos ou fracos, de forma geral, podem ser referidos como argumentos falaciosos.

O papel do pensamento crítico

O mundo pode ser descrito como uma grande rede de pessoas, tentando, o tempo todo, influenciar umas às outras.

Seu médico tentando te convencer a se alimentar melhor, o Governo tentando te convencer a respeitar as Leis, o vendedor da loja tentando te convencer a comprar aquele par de sapatos, a mídia tentando te convencer a se comportar de determinado jeito, você tentando convencer seu filho a estudar para as provas… Tudo isso são argumentos.

Todo mundo está, o tempo todo, argumentando. Todo mundo está, o tempo todo, tentando nos “vender alguma ideia” ou nos convencer de algo.

Obviamente, nem toda tentativa de convencimento ou de persuasão é ruim, mas temos que desenvolver o “ferramental de raciocínio” para identificar esses argumentos e decompô-los em seus componentes: premissas e conclusão.

O pensamento crítico é a habilidade de decompor os argumentos, analisar as premissas (para saber se não são falsas, incompletas ou enviesadas) e analisar as conclusões (para saber se têm relação lógica com as premissas).

Num mundo como o atual, em que a regra é o excesso de informações (e de argumentos), a capacidade de pensar criticamente é uma espécie de “superpoder”, que te poupara de muitas atitudes e decisões erradas.

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