16/05/2020 • • por Andre Massaro

O que é um “Cisne Negro”


Quem acompanha o mundo dos negócios e das finanças já deve ter ouvido falar em Cisne Negro (e, neste caso, não estamos falando do pássaro aquático pescoçudo que atende pelo nome formal de Cygnus atratus).

A expressão se tornou popularizada pelo escritor Nassim Nicholas Taleb, inicialmente em seu livro “Iludidos Pelo Acaso”. No livro seguinte, o cisne negro ganhou ainda mais destaque, indo direto para o título (A Lógica do Cisne Negro).

Hoje, “cisne negro” é uma expressão que faz parte do vocabulário da maioria dos profissionais de finanças, de uma boa parte dos líderes e gestores e da totalidade dos profissionais que atuam com gerenciamento de riscos (um profissional de gestão de riscos que não saiba o que significa um “cisne negro” deveria ser demitido por justa causa…).

O que é um “evento Cisne Negro”

Quando alguém fala que “tal coisa foi um cisne negro”, quer dizer que foi pega de surpresa por um evento altamente impactante.

Segundo Taleb, são três as condições que precisam estar presentes, em um evento, para que ele possa ser considerado um cisne negro

Primeira condição: Imprevisibilidade

Para que um evento possa ser definido como cisne negro, a primeira condição é que seja uma coisa imprevista e que “pegou de surpresa” a vítima do evento.

Por exemplo, um ataque de surpresa como o de Pearl Harbor, em 1941, pode ser considerado como um cisne negro pelos americanos, que sofreram o ataque (apesar de inúmeras teorias conspiratórias que dizem que os americanos sabiam, previamente, do ataque e se deixaram atacar de propósito).

Segunda condição: Alto impacto

Um evento cisne negro tem consequências severas e de grande amplitude, geralmente em um nível global ou, pelo menos, regional.

Então, se você sair de casa e um vaso cair de uma varanda, diretamente em sua cabeça, isso não será um cisne negro. Ainda que o impacto PARA VOCÊ tenha sido grande (e, neste caso, o impacto seria grande num sentido literal).

Assim sendo, eventos como guerras, catástrofes naturais, crises financeiras de larga escala e pandemias são eventos cuja magnitude e amplitude do impacto podem caracterizar um cisne negro.

Terceira condição: Facilidade de analisar em retrospectiva

DEPOIS que o evento acontece, as pessoas falam dele de uma forma que parece que era perfeitamente previsível. O mecanismo de distorção de realidade das pessoas “racionaliza” o evento e faz com que se tenha a clara impressão de que ele era previsível e “óbvio”. Porém, essa racionalização faz com que tenhamos a percepção de que os sinais e evidências “óbvias” (são óbvias agora, mas não eram antes do evento acontecer…) foram negligenciados.

Usualmente, essa é aquela fase em que buscamos culpados e responsáveis.
Nassim Taleb se refere a essa tendência de racionalizar eventos passados, como se fossem previsíveis, como “Falácia da Narrativa”.

Origens da expressão

A expressão “cisne negro”, no contexto de eventos imprevisíveis, foi popularizada por Nassim Taleb, mas não foi criada por ele. A origem da expressão é incerta, mas o primeiro “popularizador” dela (antes de Taleb) foi o filósofo Inglês John Stuart Mill, no Século XIX.

Na Inglaterra do Século XVII, acreditava-se que todos os cisnes eram brancos, pois nunca ninguém havia visto um cisne preto. A lógica era que “se ninguém nunca viu, é por que não deve existir”. Esse tipo de falácia é conhecido também como “problema da indução” ou, como se diz popularmente, em muitos círculos científicos e filosóficos: “Ausência de evidência não é evidência de ausência”.

A crença na “impossibilidade” da existência de cisnes negros caiu por terra quando o primeiro cisne dessa cor foi avistado, no Século XVIII, na Austrália.

Ou seja, basta UMA ÚNICA observação em contrário, de uma tese qualquer, para que ela “desmorone”.

Cisnes negros e os argumentos indutivos

Como vimos antes, o tal cisne negro é, essencialmente, um nome “gourmetizado” para o problema da indução. Inclusive, alguns (e o próprio Taleb, em alguns momentos) usam a expressão “Teoria dos Cisnes Negros”).

O problema da indução tem esse nome porque ele é apoiado em uma fragilidade dos argumentos indutivos. Argumentos indutivos são aqueles argumentos que são baseados em uma “conclusão provável” (e não em uma certeza).

Leia aqui: O que é um argumento

Um argumento indutivo é aquele que parte da conclusão em direção às premissas (ao contrário do argumento dedutivo, que parte das premissas para a conclusão e, por conta disso, nos dá argumentos que são “certezas lógicas”).

Um exemplo de argumento indutivo é sobre a não existência (ou não) de extraterrestres. Podemos dizer que “não existem extraterrestres” (conclusão), pois nunca ninguém viu um (premissa). Assim sendo, eles não devem existir… Até o momento em que aparecer um extraterrestre e esse argumento cai por terra.

É por isso que, no mundo da lógica, os argumentos indutivos são classificados como “fortes” ou “fracos” (e não como “válidos”, “inválidos”, “certos” ou “errados”), sendo os mais fortes aqueles com maior probabilidade de serem verdadeiros.

Não existe “verdade absoluta” no mundo dos argumentos indutivos, assim como não era verdade absoluta que todos os cisnes são brancos.

O problema é que nós, humanos, temos a tendência de atribuir a argumentos indutivos o status de “verdade absoluta”. Ao fazermos isso, a gente “se fecha” para a possibilidade de um evento improvável ocorrer e, caso esse evento ocorra, somos pegos de “calças abaixadas”.

Cada vez que alguém fala “eu jamais terei um enfarte”, “tal banco nunca vai quebrar” ou “jamais um país atacará outro com armas nucleares”, estamos dando, a um argumento indutivo, o status de verdade absoluta. Estamos preparando o cenário perfeito para que o cisne negro venha e faça cocô na nossa cabeça…

Exemplos reais de cisnes negros

Uma das condições para um evento ser um cisne negro é que ele seja inesperado. Mas, raramente, ele é inesperado “para todo mundo”.

O já mencionado exemplo do ataque a Pearl Harbor era conhecido, previamente, pelos japoneses e seus aliados. Foi uma surpresa (e um cisne negro) para os americanos.

O mesmo pode ser dito dos ataques terroristas de 2001 nos EUA. Para quem planejou e executou o ataque (e os grupos e países que apoiavam esses terroristas) não foi surpresa alguma. Mas, para o resto do mundo, foi.

O Tsunami de 2011, no Oceano Pacífico, levou ao acidente com a usina nuclear de Fukushima, no Japão. Este é um caso de cisne negro que, talvez, tenha pego todos de surpresa.

COVID-19 foi um cisne negro?

Na opinião de Nassim Taleb, não foi. Segundo ele, era possível, baseado em pandemias anteriores, antever que uma pandemia de escala maior iria acontecer em algum momento.

Ainda, segundo ele, as empresas e organizações poderiam, baseadas nessas experiencias de pandemias anteriores, terem se preparado de forma mais adequada para a pandemia do novo coronavírus.

Na minha modestíssima opinião, a visão de Taleb está correta no sentido de que o risco de uma pandemia de larga escala não era uma coisa “inimaginável”. Porém, eu entendo que o evento foi um cisne negro não pela pandemia em si, mas pela reação dos governos e das autoridades sanitárias, que decretaram lockdowns e quarentenas em larga escala em várias cidades, virtualmente “congelando” a atividade econômica.

Se eles são imprevisíveis, o que fazer?

“Prever um cisne negro” é uma contradição em termos. Se um evento pode ser previsto, NÃO É um cisne negro.

Segundo Nassim Taleb, o que precisamos é desenvolver “robustez” (num nível pessoal e organizacional) para conseguirmos absorver os impactos desses eventos. Posteriormente, Taleb cunhou o conceito de “antifragilidade”, que seria a evolução da robustez.

Se robustez é a propriedade de “aguentar impactos”, a antifragilidade (que é explorada em seu livro “Antifrágil”) seria a propriedade de se beneficiar desses impactos – de “prosperar com o caos”.

Assim sendo, uma das formas de se tentar obter benefício de eventos de alto impacto é desenvolvendo opcionalidades, que é o nome que ele dá a pequenas “apostas” de baixo custo e com baixa probabilidade de ocorrência. Porém, caso um evento de grande magnitude ocorra, o ganho daquela “aposta” será muito maior que o custo dela.

Um exemplo “bobinho”: Estocar comida enlatada em casa é algo que custa relativamente pouco, mas, se uma grande tragédia global acontecer, aquela comida pode valer mais que ouro.

Cisnes negros podem ser positivos ou negativos

Para finalizar este artigo, é importante chamar a atenção para o fato de que, na definição de um cisne negro (aquelas três condições que foram apresentadas), não há nada que fale sobre o evento ser “bom” ou “ruim”.

É que, por acaso, a maioria dos cisnes negros é negativa (um terremoto, uma guerra…). Mas uma descoberta científica acidental que leve à cura de alguma doença também é um cisne negro.

É importante chamar a atenção para isso, pois algumas pessoas acabam usando “cisne negro” para eventos negativos e “cisne branco” para coisas positivas. Um cisne branco, nesse contexto, seria um evento já previsto e, novamente, sem qualquer relação com o fato de ser positivo ou negativo.

Conclusão

Um dos pontos no qual Nassim Taleb insiste em seus livros é que eventos extremos, que causam grande impacto e grande volatilidade, são uma característica da sociedade moderna e estão se tornando cada vez mais frequentes.

Por isso, cada vez mais é temerário cair na armadilha da indução (“tal coisa NUNCA vai acontecer…”) e é preciso buscar, em nossas vidas, nossos negócios e em nossa sociedade, a tal “robustez” ou, ainda melhor que isso, a antifragilidade.

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