21/12/2019 • • por Andre Massaro

O risco de liquidez nos investimentos


Há um motivo para o título deste artigo ser “O risco de liquidez nos investimentos” (ressaltando o “nos investimentos”). No mundo da gestão empresarial, usa-se “risco de liquidez” para definir a probabilidade de uma empresa ficar sem dinheiro (sem liquidez) para dar cabo de seus compromissos e ficar numa situação de inadimplência.

NÃO É desse tipo de “risco de liquidez” que vamos tratar aqui. Aqui, vamos ver o risco de liquidez pela perspectiva do investidor.

O risco de liquidez na visão do investidor

O risco de liquidez acontece quando um investidor ou trader está posicionado em algum ativo financeiro (seja comprado ou vendido) e não consegue “sair” dele.

Se você, leitor, não tiver muita familiaridade com o mundinho da “magia negra das finanças”, talvez algo aqui tenha ficado estranho (especialmente quando eu falo de alguém estar “vendido”). Então, vou tentar escrever de uma maneira simplificada:

Imagine que você comprou algo (uma ação, por exemplo) e precisa de dinheiro. Você quer vender a sua ação para ter dinheiro, mas não tem um comprador para ela. Ou, então, tem poucos compradores e eles têm, exatamente por serem poucos, um grande poder em “forçar” sobre você as condições que eles querem.

Enfim, risco de liquidez é o risco que deriva daquela situação em que você tem patrimônio (na forma de ativos financeiros, imóveis ou seja lá o que for) mas não tem dinheiro no bolso. Aí, no momento em que você precisa de dinheiro, descobre que seu patrimônio não “vira” dinheiro com muita facilidade…

Os dois tipos de risco de liquidez

Os ativos financeiros podem estar sujeitos a dois tipos de risco de liquidez. Eu vou chamar um de “risco de liquidez de mercado” e o outro de “risco de liquidez contratual”.

Risco de liquidez de mercado

É o risco decorrente de circunstâncias de mercado, onde você não consegue vender seu ativo financeiro por falta de comprador.

Nesse tipo de risco, assumimos que não há nenhuma restrição a negociar aquele ativo. O problema é que não tem alguém no “outro lado” para viabilizar a transação. Ou, como foi mencionado antes, pode haver um número muito pequeno de potenciais compradores que não estão “competindo furiosamente” entre eles. Assim sendo, como vendedor, suas opções ficam limitadas.

Quando ocorre uma situação de risco de liquidez de mercado, o efeito disso é que você pode, simplesmente, não conseguir vender (por absoluta falta de compradores) ou pode acabar sendo obrigado a vender por um preço desfavorável, pois é uma daquelas situações em que o comprador tem o poder e ele diz “é do meu jeito ou não é de jeito nenhum”…

Risco de liquidez contratual

Neste caso, o risco não é derivado da falta de vendedores, e sim de uma restrição contratual ou Legal que te impede de vender ou resgatar aquele ativo.

Um exemplo de investimento que tem uma restrição contratual de liquidez é o RDB (Recibo de Depósito Bancário). O RDB é um título emitido por instituições financeiras que, por suas características, não pode ser negociado nem resgatado antecipadamente.

Existem vários ativos que têm esse tipo de restrição, como os já mencionados RDBs, fundos previdenciários fechados (os “fundos de pensão”), ações recebidas como bônus do empregador, fundos de investimento com lock-up entre outros.

Independentemente de haver ou não um comprador para o seu ativo, você vai “morrer abraçado” com ele (bem, pelo menos até aquela restrição deixar de existir).

Como gerenciar o risco de liquidez

Para investidores comuns

Não devemos esquecer que “liquidez” é um dos componentes do famoso “tripé dos investimentos” (rentabilidade, segurança e liquidez). Isso significa que a alta liquidez é algo que vem às custas dos dois outros fatores. E isso significa, também (exatamente por conta disso) que investimentos menos líquidos tendem a ser mais rentáveis. E isso é particularmente verdadeiro na renda fixa, pois os títulos com restrições de liquidez significam, para as instituições financeiras que os emitiram, mais previsibilidade de fluxo de caixa (e elas estão dispostas a pagar um “extra” por isso).

Eu poderia dizer, simplesmente, “exclua de sua carteira qualquer investimento que não tenha liquidez imediata”. Porém, as respostas simples raramente são as respostas corretas… Simplesmente evitar investimentos de baixa liquidez pode implicar em retornos menores do que poderiam ser.

No caso específico dos fundos de pensão, evitá-los por causa da baixa liquidez é uma decisão que pode gerar grande remorso no futuro…

Então, o ideal é que o investidor faça uma “alocação por prazo” de sua carteira, definindo, conforme suas necessidades pessoais de liquidez, o quanto deve ser investido em ativos de liquidez imediata e o quanto pode ser investido em ativos de prazos mais longos.

Para traders

No caso dos traders (ou “especuladores”, se você preferir…) a questão da liquidez é um pouco mais problemática…

O problema das operações de trading é quando não tem compradores (ou vendedores, conforme o caso) para comprar aquele ativo financeiro na quantidade desejada, e o trader fica com suas ordens “penduradas” no livro de oferta do ativo financeiro que estiver operando.

Isso é particularmente complicado no caso daqueles que operam em prazos mais curtos (como day trading ou swing trading) e a falta de liquidez pode acabar levando a grandes perdas.

O trader pode, simplesmente, não conseguir se desfazer de sua posição. Ou então se desfazer em condições ruins, em que acaba incorrendo no famigerado e temido slippage (clique aqui para ler um artigo sobre slippage, caso não conheça), que corrói o retorno das operações.

A forma que o trader tem para gerenciar o risco da liquidez é selecionando apenas ativos de alta liquidez. E se usa como principal critério o estabelecimento de uma quantidade diária mínima de negócios para o ativo financeiro que vai ser operado. Cada trader estabelece, para si, qual seria o número mínimo de negócios que um ativo deve ter para que ele se sinta minimamente seguro em suas operações.

Conclusão

O risco de liquidez faz parte da família dos riscos específicos ou idiossincráticos, pois cada ativo tem características próprias de liquidez. Assim, é um risco facilmente gerenciável através de diversificação, no caso de investidores comuns e, no caso de traders, a melhor forma de gerenciar o risco está na correta seleção dos ativos que serão transacionados.

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