15/01/2020 • • por Andre Massaro

Dividend Payout – Distribuindo lucros de forma sustentável


De forma resumida, o dividend payout (no uso comum, as pessoas costumam falar só “payout”) é um indicador financeiro (múltiplo ou ratio) que mostra o quanto do lucro da empresa, em termos percentuais, é distribuído aos acionistas.

Para aqueles que não estão habituados com a dinâmica das empresas de capital aberto, é importante saber que não é uma prática comum a empresa distribuir TODO o lucro (assumindo que tenha lucro, naturalmente…) para os acionistas.

O comum (e esperado) é que a empresa retenha uma parte desses lucros com ela, para reinvestimento ou pagamento de obrigações.

Definição de “dividendo” no dividend payout

Vamos falar sobre uma questão “protocolar”. No Brasil, temos uma parcela dos lucros chamada de “Juros Sobre Capital Próprio” (JCP). Os pormenores sobre o JCP estão fora do escopo deste artigo (se quiser saber mais, leia aqui: O que são os Juros Sobre Capital Próprio – JCP), mas, para fins de construção de indicadores financeiros, JCP e dividendos são considerados a mesma coisa.

Então o “dividend” do nome não se refere apenas aos dividendos, mas à soma dos dividendos e o JCP.

Dividend payout é um indicador que, como muitos outros, é referido, aqui no Brasil, em sua forma original (em Inglês). Isso já deixa claro que ele “vem de fora”. Como o JCP é uma espécie de “jabuticaba financeira” (que só existe no Brasil), fazemos essa adaptação para incorporá-lo aos dividendos pagos.

A fórmula do dividend payout

A fórmula é o lucro distribuído (JCP + dividendos) dividido pelo lucro líquido da empresa.

Se uma empresa tem um lucro líquido de cinquenta milhões de reais e distribuiu vinte milhões de reais, seu dividend payout será de 40%

20.000.000/50.000.000 = 0,4 => 40%

O dividend payout é apresentado na forma de percentual e é, tipicamente, calculado sobre os lucros líquido e distribuído dos últimos doze meses.

Enfim, não há nenhum segredo na fórmula. O importante mesmo é saber como interpretar o resultado.

A questão dos dividendos mínimos

No Brasil, não há uma regra que defina qual o percentual mínimo dos lucros que as empresas de capital aberto devem distribuir. O que existe é uma regra (está na Lei das S.As.) que diz que, em caso de omissão do estatuto, o dividendo mínimo deverá ser de 50% do lucro líquido ajustado.

Porém, se o estatuto for explícito quanto ao dividendo mínimo, vale o que está escrito, que pode, inclusive, ser zero.

Acima daquilo que está no estatuto, a empresa tem liberdade para definir o quanto vai pagar. Pode ser o mínimo que o estatuto permite ou pode ser 100% do lucro

O lucro e a sustentabilidade econômica da empresa

As empresas têm diferentes características, tanto internas (de sua própria estrutura) quanto relacionadas ao segmento em que atuam. Essas características definem, entre outras coisas, as necessidades de recursos da empresa. E uma das fontes de recursos é o reinvestimento dos lucros.

Por isso, a empresa (leia-se: os acionistas) pode optar por NÃO distribuir uma parte do lucro e ficar com o dinheiro. Isso representa, para o acionista, uma perda da renda gerada através do dividendo. Mas o “racional” por trás disso é que, ao reinvestir o dinheiro na empresa, ela crescerá e o valor das ações aumentará. Então, se espera que aquilo que “se abre mão” de dividendos retorne na forma de maior valor nas ações.

E é importante que a empresa cresça e se desenvolva. Isso está associado à própria sustentabilidade do negócio. Como se diz por aí, “quem fica parado é poste” e uma empresa que não investe em si mesma perde espaço e tende a desaparecer.

Vendo por essa ótica, é “saudável” e esperado que a empresa retenha uma parte dos lucros para investir em si própria e gerar mais valor para os acionistas.

Limites para o reinvestimento do lucro

Porém, algumas empresas, por suas características, não têm “muito o que fazer” com aquele dinheiro. São empresas que estão em um certo estágio de maturidade ou que estão em segmentos com baixo potencial de crescimento.

Um exemplo típico são empresas de infraestrutura em geral. Quando se constrói uma infraestrutura qualquer (uma estrada, uma usina hidroelétrica, um aeroporto…), uma vez que a obra está pronta não tem muito mais “o que inventar”.

Obviamente que infraestruturas demandam manutenção e modernização, mas são custos relativamente pequenos em relação ao lucro que elas geram. Por exemplo, quando se constrói uma estrada, a estrada está ali, pronta… Não dá para construir outra estrada no mesmo lugar. Num caso como esse, o dinheiro fica “sobrando” e a coisa mais sensata é distribuir aos acionistas.

É por isso que as empresas de infraestrutura são consideradas, popularmente, “boas pagadoras de dividendos”. Porque elas são muito lucrativas e distribuem uma grande parcela dos lucros (leia-se: têm um dividend payout alto).

Essas empresas “não têm para onde crescer”. Simples assim…

Por outro lado, algumas empresas têm um ALTÍSSIMO potencial de crescimento, e precisam de CADA CENTAVO para financiar esse crescimento. Imagine uma empresa de tecnologia pioneira que está “desbravando o mercado”. Essa empresa precisa crescer rapidamente, antes que os concorrentes entrem no mercado e ocupem o espaço.

Para uma empresa assim, faz sentido distribuir o mínimo possível de dividendos. Ou mesmo, não distribuir dividendo nenhum. Por ser uma empresa com alto potencial de crescimento, espera-se que o valor das ações vá se multiplicar muito, compensando (e com folga) aqueles dividendos que foram sacrificados.

Quando o dividend payout é alto demais?

Uma empresa pode distribuir 100% do seu lucro ou algo próximo disso. Só tem um problema… Ela dificilmente vai conseguir manter a distribuição dos lucros nesses níveis por muito tempo.

Em algum momento a empresa vai “pedir água” e os acionistas vão receber menos do que aquilo que estavam recebendo. Pior que isso, a empresa pode se enfraquecer nesse período de “distribuição generosa” e a lucratividade pode ficar comprometida irremediavelmente.

Por isso, deve-se desconfiar de empresas com dividend payout alto demais. Muitas vezes, as empresas distribuem uma parcela grande dos dividendos para fazer um “agrado” aos acionistas, ou para melhorar outros indicadores. Mas isso é uma daquelas “gambiarras” de curto prazo que custam caro no longo prazo.

Como regra geral, dividend payout alto demais não é um bom indício (salvo algumas exceções – vide a seguir).

O que é um dividend payout ideal?

A resposta, para esta pergunta, depende de como a empresa é classificada quanto aos seu potencial de crescimento.

É uma empresa madura, em um setor de baixo potencial de crescimento? Ou então uma empresa de infraestrutura? Em casos assim, o dividend payout pode ser alto (acima de 60% mas, preferencialmente, não muito próximo dos 100%) sem que isso signifique um “sinal de alerta”.

No caso de empresas assim (que não “têm para onde crescer”), um dividend payout alto é normal e esperado.

Porém, se a empresa ainda tiver potencial de crescimento, um dividend payout alto é um sinal negativo.

Em empresas que ainda têm espaço para crescer, um dividend payout razoável seria não superior a 50%. Mais idealmente ainda na faixa de 30%. Mas os 50% ficam como aquela linha que se deve evitar ultrapassar.

Conclusão

O dividend payout é um indicador muito importante e que dá informações valiosas sobre a empresa. Porém, como outros indicadores, ele não deve ser visto isoladamente. Ele deve ser analisado junto com outros indicadores, inclusive com o famoso dividend yield.

Para saber mais, leia aqui: O que é Dividend Yield (e como calcular).

Aliás, o dividend payout e o dividend yield fazem parte da “caixinha de ferramentas básica” dos investidores que buscam dividendos (os adeptos do Income Investing). Por isso, é fundamental saber interpretar.

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