10/08/2020 • , • por Andre Massaro

O efeito manada nos investimentos, nos negócios e na vida


O efeito manada é algo que a maioria das pessoas associa a bolhas financeiras, mas é uma coisa muito antiga – mais antiga que a própria humanidade.

Assim como outros vieses cognitivos, o efeito manada é uma daquelas coisas que nos ajudou (como espécie) a chegarmos vivos onde estamos. Mas, hoje, acaba nos atrapalhando mais do que ajudando.

Neste artigo, vamos tentar entender o que é o efeito manada, como ele nos afeta, como identificar e se é possível fazer alguma coisa para neutralizá-lo.

O que é o efeito manada

O efeito manada é a tendência das pessoas de seguirem (ou se juntarem a) grupos e imitarem o comportamento da maioria.

Por conta do efeito manada, as pessoas adotam hábitos e comportamentos de outras pessoas, de forma irracional, inconsciente e, frequentemente, contra seus próprios interesses.

Pessoas “vítimas” do efeito manada acabam, em algumas situações, tomando decisões erradas e fazendo coisas danosas a si próprias, simplesmente porque “todo mundo está fazendo”.

Origens do efeito manada

Para entender as origens do efeito manada, é preciso entender dois fatos da Natureza.
O primeiro, já bem documentado, é que seres vivos como nós foram programados, ao longo de milhões de anos de evolução, para poupar energia. É por isso que felinos dormem a maior parte do tempo, pássaros migratórios voam em formação e, como regra geral, nenhum animal, ao menos na Natureza, fica andando e se movimentando “de bobeira”, sem algum propósito.

No caso dos seres humanos, é sabido que nosso cérebro é, sozinho, responsável por algo entre 20 a 30% do consumo de energia. Ou seja, pensar “custa caro” em termos energéticos, especialmente quando vivíamos na Natureza e calorias eram uma coisa escassa (hoje a gente sofre com o excesso de calorias, não com a falta).

Por isso, fomos evolutivamente programados para “não pensarmos” (ou, pelo menos, para não pensarmos muito). Para nós, seres humanos, é mais eficiente termos líderes que pensam por nós e nos dizem “o que fazer”.

Tudo bem que o cérebro humano faz muito mais do que, simplesmente, pensar. Ele controla nossos movimentos e nossa respiração, por exemplo. Mas não podemos poupar energia nessas atividades de manutenção da vida. Por isso, o que “sobra” é tentar restringir nossa atividade cognitiva de alto nível, não pensando muito e, sempre que possível, seguindo líderes ou seguindo grupos (na presunção de que “se todo mundo está indo para aquele lado, eles devem saber o que estão fazendo).

O outro fato é que uma boa parte dos animais desenvolveu o hábito de andar em grupo como uma forma de proteção contra perigos e predadores. Isso é particularmente verdadeiro para nós, humanos, que não somos muito “bem armados” pena natureza para vivermos sozinhos.

Hoje em dia, viver afastado de grupos e não seguir a “galera” é uma opção. Antigamente, esse tipo de atitude era morte certa.

O efeito manada nos investimentos

O exemplo mais comum de efeito manada nos investimentos são as bolhas financeiras, que acontecem, principalmente, nos mercados de renda variável (bolsa de valores, commodities e imóveis).

Em inúmeras ocasiões ao longo da história, os mercados financeiros já presenciaram ativos se valorizando de forma rápida e expressiva, sem qualquer explicação racional e sem base em fundamentos econômicos e financeiros.

Essas valorizações “sem motivos” são, na maioria das vezes, impulsionadas por fatores irracionais, como aquela percepção de que “todo mundo está ganhando dinheiro e eu não quero ficar de fora dessa”.

Esse fenômeno é chamado de “bolha” porque, como se pode imaginar, em algum momento as bolhas estouram… Um ativo financeiro começa a se valorizar rapidamente e seus preços são inflados por fatores irracionais. Só que, em algum momento, alguém “cai em si” e a racionalidade retorna. Quando isso acontece, as pessoas percebem que aquilo não faz nenhum sentido e querem se livrar, o mais rapidamente possível, daquele ativo que, agora, virou um “mico”.

É o estouro da bolha…

O efeito manada nos negócios

O mundo dos negócios é famoso pelos modismos e pela racionalização (que é a “fabricação” de argumentos racionais para tentar explicar comportamentos irracionais).

Uma quantidade absurda de dinheiro e de recursos é desperdiçada pelas empresas em coisas cuja única explicação é que “todos os outros estão fazendo”. Coloque-se, nessa conta, a contratação de consultorias “estreladas” para implementar métodos e procedimentos de eficácia duvidosa, a aquisição de sistemas de gestão que obrigam a empresa a se adaptar ao sistema (e não ao contrário) ou a contratação, a peso de ouro, de executivos e profissionais que têm alguma habilidade que, agora, “está na moda”.

Essas ações, por parte de empresas, na maioria das vezes acabam se revelando como distrações, que apenas desviam a atenção daquilo que deveria estar sendo feito para tentar pegar um “atalho”, na presunção de que os concorrentes estão fazendo o mesmo.

O resultado desses modismos é, na maioria das vezes, a destruição de valor. E quem paga a conta é o acionista.

O efeito manada na vida

Fora do contexto dos negócios e dos investimentos, é muito fácil observar o efeito manada em vários aspectos. Dois que merecem destaque são o consumo e os comportamentos.

Um exemplo clássico: Imagine que você quer ir numa pizzaria. Aí, você encontra duas pizzarias, uma ao lado da outra. Em uma delas, há uma fila para entrar e a expectativa é que você vai esperar meia hora para ser colocado em uma mesa. A outra pizzaria está vazia e você vai ser atendido na hora.

Eu nem vou me dar ao trabalho de perguntar onde você iria, pois tenho quase certeza que a resposta será algo como “eu não sigo a maioria – tomo minhas próprias decisões”. Sei…

Mas o ponto é que a maioria das pessoas não pensa desse jeito. A pessoa prefere esperar meia hora pois, se ali está cheio, é porque deve ser melhor que o vizinho.

Se “todo mundo” vai naquele restaurante, “todo mundo” se veste daquele jeito e “todo mundo” está falando daquele novo seriado na televisão, isso, por si só, já serve como um fator de decisão.

Para nós, é “mais barato”, em termos de gasto energético, deixar que a “inteligência coletiva” decida por nós.

Efeito manada e “groupthink

Groupthink é uma expressão em Inglês, meio intraduzível, que reflete um comportamento associado ao efeito manada e que é particularmente comum no mundo dos negócios.

Uma forma de tentar traduzir o groupthink é dizer que é um “consenso forçado”. É aquela situação em que a pessoa toma uma decisão que não é aquela que ela gostaria e nem a que acha correta, mas faz isso para não desagradar ao grupo.

No mundo dos negócios, é muito comum um líder (especialmente um líder carismático) acabar induzindo as pessoas a tomarem uma decisão errada apenas para não desagradar ao líder ou ao grupo.

As pessoas cedem ao groupthink para não ficarem com aquela imagem de que são ”do contra”. Ou por medo de sofrerem retaliações por terem se antagonizado.

Como identificar o efeito manada

Existem várias formas de identificar quando o “efeito manada” está dominando uma situação. Mas algumas formas comuns são:

Consensos e generalizações

Qualquer coisa que é apresentada como se “todo mundo está fazendo” serve como uma pista de que há um efeito manada ou que, então, alguém está tentando, artificialmente, criar um movimento.

É muito fácil identificar esses sinais na linguagem publicitária e nas mídias sociais, especialmente quando se tenta influenciar a opinião de pessoas com questões políticas, de comportamento ou mesmo de investimentos.

Groupthink

O já referido groupthink, que é quando a pessoa se sente pressionada a concordar com algo para não desagradar ao grupo.

O groupthink vem do nosso medo visceral de sermos rejeitados e condenados pela nossa “tribo”. Lembrando que, no passado, ser abandonado pela tribo não era algo que te deixava deprimido – e sim que representava sua morte.

Ridicularização e hostilização

A ridicularização e a hostilização são formas extremas de groupthink, em que o grupo “parte para o ataque” contra você por ter uma opinião diferente.

E, aqui, uma coisa interessante deve ser notada. A ridicularização e a hostilidade não são apenas formas de atacar os dissidentes, mas de reforçar as crenças do próprio grupo.

A “manada” se torna mais forte e unida quando ataca aquilo que percebem ser um “adversário comum”.

Como evitar o efeito manada

A má notícia é que não tem como evitar… É uma coisa de nossa natureza e, por mais que a gente tente lutar contra, em algum momento nós acabamos cedendo.

Então, o melhor que a gente pode fazer é tentar identificar aquelas situações em que VALE O ESFORÇO de combater o efeito manada, pelo potencial de nos causar problemas e impactos negativos.

Por exemplo, no campo do conhecimento do pensamento crítico (que é a aplicação da lógica informal na avaliação de argumentos), costuma-se dizer que não é nem possível, nem viável e nem desejável aplicar o pensamento crítico “em tudo”, pois isso impediria a pessoa de levar uma vida normal.

E o pensamento crítico é, por incrível que pareça, a melhor ferramenta para combater o efeito manada, pois é ele que nos faz “parar e pensar” se aquela atitude da maioria faz algum sentido… Afinal, modismos e teses de investimento são, basicamente, argumentos!

Pensar em profundidade é algo que representa um grande gasto de energia e, como vimos, somos programados para poupar energia. Por isso, temos que ser criteriosos na hora de escolher os argumentos que vamos analisar. Não podemos nos dar ao luxo de perder tempo e energia elucubrando sobre banalidades.

Então, o ponto é que não tem problema “seguir a manada” para decisões simples, como escolher a cor da sua roupa, a próxima série que você vai assistir ou onde você vai comer a sua pizza. São decisões simples, banais e que, se forem erradas, provavelmente não vão te causar nenhum grande dano (bem, espero que a pizza não te mate!).

Mas para decisões complexas e de alto impacto, como investir todas as suas economias ou tomar uma decisão empresarial estratégica, é importante sair do “piloto automático” e desafiar o consenso.

Até porque sabemos que, nesse tipo de decisão, a maioria sempre acaba sendo vencida e a vitória fica nas mãos de poucos.

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