13/06/2020 • • por Andre Massaro

Flag Theory – Como ser um viajante perpétuo


Flag Theory é um estilo de vida alternativo e um modelo radical de internacionalização – não apenas de internacionalização dos investimentos (um assunto que está na moda, ultimamente), mas internacionalização DE TUDO.

É um modelo extremo de internacionalização, onde você parte do princípio de que vai otimizar seu estilo de vida combinando diferentes jurisdições, onde cada uma delas oferece condições mais favoráveis para algum aspecto importante da sua vida ou dos seus negócios.

Neste artigo, vou explicar o que é a tal Flag Theory, e você poderá definir se é algo que “faz sentido” para você.

Origens e definições da Flag Theory

Flag Theory é um termo em Inglês que significa, em tradução livre, “Teoria das Bandeiras”. Não é, de fato, teoria nenhuma, e sim um framework de internacionalização pessoal que foi criado, nos anos 60, pelo investidor e autor Harry D. Schultz.

As “bandeiras” representam, na verdade, países (ou, mais especificamente, JURISDIÇÕES).
O modelo original previa três “bandeiras” e, posteriormente, foi expandido para cinco. Tanto que alguns se referem pelo nome completo Five Flags Theory.

Harry Schultz dizia, em seus livros e textos, que todas as pessoas deviam ter uma segunda nacionalidade, um endereço em outro país (preferencialmente um paraíso fiscal) e manter seus ativos e investimentos em um terceiro país, que não seja o mesmo de residência e nem de nacionalidade.

A evolução do conceito

Para a maioria dos brasileiros, o que vou falar acaba não sendo uma coisa muito visível. Mas existe, no mundo, uma imensa e ativa “subcultura” voltada para a internacionalização, especialmente nos países desenvolvidos.

Essa subcultura gerou uma infinidade de blogs especializados, livros, cursos e prestadores de serviços, que te arranjam coisas como outras nacionalidades e passaportes (se você pagar o preço…), aberturas de firmas offshore, aberturas de contas bancárias e muito mais.

As motivações por trás desse interesse pela “internacionalização” são as mais diversas. Desde milionários (e até bilionários) tentando se proteger da arbitrariedade e do apetite fiscal dos governos até pessoas comuns em busca de qualidade de vida.

A questão da “busca de qualidade de vida” pode parecer um pouco estranha nesse contexto, mas, numa economia desenvolvida, acaba fazendo muito sentido. Um típico aposentado americano ou europeu, que vive uma “vidinha de merda”, recebendo uma pequena aposentadoria do Governo, morando numa “caixa de fósforos”, com neve até a cintura e tendo que se alimentar de comida para cachorro pode, com a mesma aposentadoria que recebe em seu país de origem, ter uma vida infinitamente melhor na Guatemala ou no Marrocos.

O interesse pela Flag Theory também teve um grande impulso, mais recentemente, por causa dos chamados “nômades digitais” – pessoas que conseguiram construir suas vidas profissionais online e que, em teoria, podem viver em qualquer lugar. Ou até mesmo não viver em lugar algum, sendo um “turista permanente”.

Essa ativa comunidade de pessoas com interesse em internacionalização, proteção patrimonial e nomadismo digital acabou ampliando a quantidade de “bandeiras” originais de três para cinco. A seguir:

Quais são as “cinco bandeiras”

Como foi dito anteriormente, cada bandeira representa um país (“jurisdição” – eu sei que em 99% das vezes “país” e “jurisdição” são sinônimos, mas, neste contexto, detalhes são importantes…) onde será tratado um aspecto importante de sua vida ou de seus negócios.

Diagrama em formato de mapa mental, mostrando os principais pontos da Flag Theory
Mapa mental – Flag Theory
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É um “modelo de alocação” para esses aspectos, onde se vai buscar a melhor jurisdição para cada um. As bandeiras representam, também, o tal “aspecto” que será atribuído a uma jurisdição diferente. Então, vamos lá:

1ª bandeira: Cidadania e passaporte

Obter outra cidadania (além da sua original) é o primeiro aspecto da teoria. O passaporte é uma consequência da cidadania.

Idealmente, se deve buscar uma segunda cidadania (ou mesmo uma terceira, ou uma quarta…) em um país que tenha um sistema fiscal favorável, que não cobre impostos sobre renda gerada FORA da jurisdição. Também é interessante que não seja um país “encrencado”, com guerras e coisas do gênero, que possam te causar qualquer tipo de problema ou constrangimento em uma viagem, caso você precise apresentar seu passaporte.

Aqui, uma coisa curiosa: Alguns brasileiros sonham em ter cidadania americana. Um típico adepto da Flag Theory (e conhecedor desses “pormenores” da internacionalização) preferirá ter um braço amputado (sem anestesia) do que ter cidadania americana.

Os Estados Unidos são um dos poucos países que tributam renda obtida fora do país e, acho que nem é necessário dizer, é um dos países mais encrencados do mundo, sempre envolvido em guerras e confusões. Em alguns lugares do mundo, apresentar um passaporte americano é sinônimo de problemas.

Para fechar o assunto: Existem duas formas comuns de se obter uma nova cidadania. Uma delas é, simplesmente, “tendo direito” por conta de seus antecedentes familiares (como inúmeros brasileiros que conseguem obter cidadania Italiana ou Portuguesa, por exemplo).

A outra forma é pagando por isso. Existem países que oferecem cidadania em troca de investimentos no próprio país (e já aviso que não costumam ser valores pequenos).

2ª bandeira: Residência fiscal

O “endereço fiscal” é a jurisdição onde você, em tese, paga seus impostos e cumpre suas obrigações fiscais.

Na maioria dos países, sua residência fiscal vai coincidir com sua residência física, mas não necessariamente isso acontece.

Alguns países “forçam” (compreensivelmente) que você se torne um residente fiscal do país caso esteja lá por tempo prolongado. Mas existem formas de gerenciar isso.

Por exemplo, existem brasileiros que, efetivamente, vivem nos EUA, mas mantém seu endereço fiscal no Brasil, recolhendo impostos para a Receita Federal Brasileira. Periodicamente, eles dão uma “fugidinha” dos EUA para tentar descaracterizar o fato de que, efetivamente, vivem lá.

Quando se busca um novo endereço fiscal, o ideal é que seja num país que não cobre impostos sobre renda ou patrimônio. Ou seja, o objetivo aqui é pagar poucos impostos e, se possível, NENHUM imposto.

3ª bandeira: Local de incorporação de sua empresa

Os adeptos do Flag Theory, tipicamente, têm suas próprias empresas. Geralmente são empresas que permitem que sejam “tocadas” remotamente, como e-commerce, produtos digitais, consultoria, serviços diversos ou mesmo um hedge fund.

O que se busca, aqui, são jurisdições estáveis, com sistemas legais previsíveis (a tal “segurança jurídica”) e com sistema tributário favorável a empresas.

4ª bandeira: Seu patrimônio

Aqui, é o momento em que você define em qual jurisdição vai manter seu patrimônio.

Idealmente, o local de “guarda” de seu patrimônio deve ter um mercado financeiro maduro, um sistema bancário confiável (de preferência que leve muito à sério as questões de sigilo bancário) e um sistema tributário que não penalize rendas passivas (como juros e dividendos) nem ganhos de capital.

5ª bandeira: Os “playgrounds”

A última bandeira diz respeito ao país (ou países – afinal, você pode optar por se tornar um viajante frequente ou perpétuo) onde você passará a maior parte do tempo e onde vai gastar seu dinheiro.

Idealmente, esse país (ou países) deve ser um lugar agradável, barato e com um regime tributário que não penalize o consumo, aplicando impostos sobre a comercialização de bens ou impostos sobre valores agregados.

Um modelo extremo de otimização e diversificação

Observe, então, que a teoria definiu cinco aspectos importantes de sua vida (cidadania, endereço fiscal, endereço de seus negócios, local onde estão seus ativos e seu endereço “de fato”) e “fincou”, em cada um deles, uma bandeira que representa o país ideal para aquilo.

A ideia é que você escolha o MELHOR país (e nada menos que isso) para cada um desses aspectos. Ou seja, assumindo que tudo dê certo, você vai ganhar um bom dinheiro, vai pagar poucos impostos (ou mesmo imposto nenhum) e vai viver como u, rei gastando pouco.

Isso me lembra um pouco aquela velha piada que diz que o paraíso é aquele lugar em que os policiais são ingleses, os cozinheiros são franceses, os mecânicos são alemães, os amantes são italianos e tudo é organizado pelos suíços.

Já o inferno é um lugar onde os policiais são alemães, os cozinheiros são ingleses, os mecânicos são franceses, os amantes são suíços e tudo é organizado pelos italianos.

Bem… nada é tão ruim que não possa piorar. Já pensou se tudo fosse organizado pelos brasileiros?

E o que eu acho disso tudo?

Se você já me conhece há algum tempo e acompanha meus conteúdos, já deve ter percebido que eu tenho um certo encanto por “estilos de vida alternativos”. Eu me interesso por minimalismo (como o “movimento FIRE”), maximalismo (ser um bilionário) e muito mais.

E, mais que isso, eu ADMIRO pessoas que adotam, para si mesmas, modelos de vida alternativos e que vão contra as “regrinhas” que alguns gostam de nos impor.
Mas isso não significa que eu seja (ou tenha a intenção de ser) adepto de algum desses estilos.

Eu acho a Flag Theory interessantíssima, mas desconfio que “não seja para mim”. Eu nunca tentei viver desse jeito para saber se, de fato, não é um estilo ao qual eu me adapto. Então, talvez não devesse tirar nenhuma conclusão sem, antes, dar uma chance.

Por outro lado, eu nunca comi cocô para saber se é ruim e nunca me joguei pela janela para saber se, de fato, eu posso me machucar. Então, é melhor deixar as coisas como estão…

Eu acabei criando um modelo próprio de internacionalização, que eu chamei de Gerenciamento de Riscos em Camadas, que é mais focado na questão patrimonial e não busca uma internacionalização tão radical.

Aliás, na questão patrimonial, eu creio que o meu modelo é até mais “bem resolvido” que a Flag Theory, pois ela pressupõe uma única “bandeira” para o patrimônio. E essa ideia não me agrada…

Leia aqui: Investimentos – O gerenciamento de riscos em camadas

A Flag Theory é para você?

Assim como todos os estilos de vida alternativos, a Flag Theory tem uma aplicação restrita e que não é muito fácil.

Para começo de conversa, tem a questão da sua própria sobrevivência. Se você for uma pessoa muito rica, tudo fica bem mais fácil.

Se você não é uma pessoa rica, mas tem negócios e atividades que te permitem trabalhar remotamente, as coisas ficam um pouco mais fáceis.

Se você tem uma vida mais “comum”, com emprego ou negócios convencionais que exijam sua presença física, a adoção da Flag Theory fica fora de questão (a não ser que você concorde em reestruturar sua vida profissional).

Algumas pessoas, também, não apreciam a ideia de ficar viajando o tempo todo e de nunca fincar raízes em algum lugar.

A Flag Theory é daquelas coisas que, na teoria (e, agora, o nome “teoria” vem a calhar) parecem maravilhosas e um estilo de vida “dos sonhos”. Na realidade, como sempre, as coisas tendem a não ser tão fáceis e a distância entre expectativas e realidade pode ser grande.

Conclusão

Quem se interessa pela Flag Theory pode ter muitos interesses. Mas o maior desses interesses costuma ser “proteção”. Proteger a si mesmo, seu patrimônio e seus negócios da mão pesada e da fúria predatória de alguns governos.

A adoção da Flag Theory, como foi comentado anteriormente, pode não ser uma coisa muito fácil. Porém, se você julgar que tem necessidades especiais de proteção e de gestão de riscos, você pode criar sua própria versão da teoria, ou mesmo implementá-la de forma parcial ou restrita, não precisando aplicar todas as bandeiras.

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