31/12/2019 • • por Andre Massaro

O que é um Hedge Fund


Quero começar este artigo dizendo o seguinte: NÃO EXISTE HEDGE FUND NO BRASIL!

Se você procurar outros artigos, em Português, falando sobre hedge funds, é possível que você leia coisas como “fundos multimercado são equivalentes aos hedge funds”.

Mas eu vou dizer mais uma vez (para não haver dúvidas): Não existem hedge funds no Brasil e não existem estruturas de investimento que sejam similares a eles… E fundos multimercado não têm NADA A VER com hedge funds.

Acho que, feitas essas observações, podemos prosseguir…

O que é, afinal, um Hedge Fund?

Quando se fala em hedge fund, a primeira coisa que vem à cabeça (e é compreensível – por causa do nome) é “um fundo que faz operações de hedge” ou operações com derivativos.

Bem, alguns fundos multimercado brasileiros fazem operações com derivativos e operações de hedge. Por conta disso, é natural que alguns digam “ahhhh…. então eles são equivalentes aos hedge funds”.

O raciocínio seria perfeito, se não fosse por um pequeno (mas fundamental) detalhe: Os hedge funds NÃO SÃO, necessariamente, fundos que fazem hedge ou operam com derivativos…

Hedge funds são fundos “especiais” (mais sobre isto adiante) que não são regulados da mesma forma que os fundos convencionais (fundos mútuos e previdenciários).

Um hedge fund é algo que, de certa forma, sequer pode ser considerado um “fundo”. Ele se assemelha muito mais a uma empresa limitada comum com vários sócios. Nos Estados Unidos, por exemplo, um hedge fund é, tecnicamente, uma firma limitada (uma “LLC”, que seria equivalente à “Ltda” brasileira) e uma das poucas restrições que as autoridades financeiras impõem a eles é que não podem aceitar investidores que não sejam “accredited” (equivalentes aos investidores qualificados e profissionais, aqui no Brasil) ou institucionais.

Em alguns outros países, sequer há uma definição do que seja um hedge fund. Qualquer “firminha” pode se designar como hedge fund se quiser…

Então, um hedge fund é algo que sequer é um “fundo de verdade”. É uma firma limitada que tem um pouco mais de flexibilidade de movimentação de cotistas e um pouco (e BEM pouco, diga-se de passagem) de regulação por conta das autoridades financeiras.

Aqui, no Brasil, não é possível (ao menos não por enquanto) usar uma empresa limitada “comum” como veículo de investimentos aberto ao público (ainda que um público de investidores qualificados). A única forma de fazer um fundo de investimentos, aqui no Brasil, é fazendo um fundo “de verdade”. Seja um fundo mútuo (daqueles regulados pela Instrução CVM 555 – e fundos multimercados se enquadram aqui), um fundo previdenciário ou um fundo estruturado (como os fundos imobiliários ou de participação).

Não tem muitas opções fora disso. Por isso, eu insisto, NÂO EXISTEM hedge funds no Brasil, pois a legislação brasileira não permite esse tipo de estrutura.

Estamos “acordados” quanto a isso?

Por que os hedge funds têm esse nome?

Aí que vem a pegadinha… Hedge funds, como já vimos, não são “fundos de hedge” (apesar do nome), e sim “fundos com pouca regulação”. Por terem pouca regulação, os hedge funds podem investir em, praticamente, “qualquer coisa” (inclusive operações de hedge)… Ações, cotas de empresas fechadas, commodities, derivativos… Não existem muitos limites aqui.

Os hedge funds modernos começaram a se popularizar, nos EUA, por volta dos anos 60 e 70 (mas foram criados antes disso). Eram fundos que faziam operações de arbitragem estatística (o famoso “long & short”) que são um tipo de operação “hedgeada”.

Porém, como nos fundos mútuos convencionais não era possível (por questões regulatórias) fazer esse tipo de operação, precisou se usar outro tipo de estrutura, mais flexível e simplificada. A ideia era, basicamente, “vamos abrir uma firma limitada e operar dentro dela”. Assim, se ficava fora do alcance dos reguladores financeiros.

A ideia deu certo e muitos desses “fundos informais” surgiram para fazer operações de hedge, a tal ponto que o nome hedge fund “pegou”. E, por conta disso, todos os outros fundos com estrutura similar (ainda que fossem investir em outras coisas completamente diferentes) passaram a ser chamados, genericamente, de “hedge funds”.

Então, para não ter mais dúvidas: Alguns hedge funds fazem operações de hedge, mas não todos. O que define um fundo como hedge fund é sua estrutura, e não suas operações.

A figura do gestor de um hedge fund

A esta altura, eu espero que você já tenha entendido que um hedge fund não é um “fundo típico”. Num fundo típico, a figura do gestor é cercada de requerimentos e responsabilidades. Aqui no Brasil, obter a licença de gestor de carteiras junto à CVM não é nada fácil. Nos EUA, obter a licença equivalente também está longe de ser “moleza”.

Porém, no caso do hedge fund, como ele é um fundo “de mentirinha”, os requerimentos para ser gestor são muito baixos ou, em alguns casos, são inexistentes.

Nos EUA, há grande controvérsia se gestores de hedge fund devem se reportar às autoridades financeiras. Já houveram algumas “idas e vindas” e o assunto ainda não está totalmente resolvido. Existem também alguns requerimentos específicos impostos por alguns Estados mas, como regra geral, podemos dizer que, basicamente, qualquer “Zé Arruela” pode ser gestor de um hedge fund.

Se uma pessoa lá tem condições de abrir uma firma limitada, ela terá, em tese, condições de ser uma gestora de hedge fund. Por isso, se alguém se apresentar para você como Hedge Fund Manager, não se deixe impressionar pelo nome pomposo.

Hedge Fund Manager é mais ou menos como CEO (Chief Executive Officer). O título sozinho não tem significado nenhum se não estiver acompanhado de alguma coisa “substancial”. Eu posso, por exemplo, dizer que sou CEO de um carrinho de hot dog… O que me impede? Mas será que isso me dá o mesmo status que ser o CEO da Amazon?

Eu posso colocar no meu perfil do LinkedIn que sou Hedge Fund Manager… de um “hedge fund” aberto por mim mesmo em Delaware, com capital de mil “doletas” e cujo único cotista sou eu mesmo. No papel, isso faz de mim tão Hedge Fund Manager quanto o George Soros…

Então, não se deixe impressionar por títulos. E saiba que ser um “gestor de hedge fund” não é a mesma coisa que ser gestor de um fundo “normal”. O gestor de um fundo normal tem que passar por um rigoroso processo de qualificação que o gestor de hedge fund está dispensado.

Comparar, só pelo título, um gestor de hedge fund com um gestor de fundos convencionais é o equivalente a comparar um “coach quântico” com um médico psiquiatra…

Por isso, só leve a sério um Hedge Fund Manager se essa pessoa, de fato, gerencia um hedge fund relevante e publicamente reconhecido. Do contrário, desconfie.

Para finalizar, não existem hedge funds no Brasil

Fundos multimercados são fundos convencionais, regidos pela Instrução CVM 555 e são EXTREMAMENTE REGULADOS. Alguns fundos multimercado fazem operações de hedge, mas isso não faz deles “hedge funds” pois, como vimos, “hedge fund” designa um tipo de estrutura, e não o tipo de operação financeira que é feita. A ideia de comparar hedge funds com fundos multimercados é descabida. Fazer esse tipo de comparação é, na melhor das hipóteses, “forçar a barra” para tentar criar uma analogia imprópria e, na pior das hipóteses, uma demonstração de ignorância e superficialidade.

O mais próximo que poderia haver de um hedge fund no Brasil seria uma empresa limitada com vários sócios investindo o dinheiro. Mas essa estrutura estaria sendo usada para uma finalidade imprópria, então teria que funcionar como um fundo “informal” e totalmente fora do alcance do radar autoridades do mercado financeiro.

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