02/06/2020 • , • por Andre Massaro

Investimentos – O gerenciamento de riscos em camadas


O gerenciamento de riscos em camadas é um framework de gestão estratégica de riscos patrimoniais criado por… Mim mesmo!

O modelo (o tal framework) é bastante simples e, diria, até intuitivo. Mas, para que eu possa apresentar uma explicação mais completa, eu preciso dar um pouco de contexto.

Há bastante tempo (anos atrás), eu dava consultoria de estratégias de investimento e gestão patrimonial para indivíduos e famílias (usualmente de alta renda). É um tipo de atividade que interrompi por tempo indeterminado (não sei quando e nem “se” retomarei).

Por conta das necessidades especiais de gestão de riscos dessas pessoas de alta renda, eu criei o modelo do “gerenciamento de riscos em camadas” e, posteriormente, apresentei ele no meu curso introdutório “Blueprint – Formação de Investidores”.

Então, neste artigo, vou apresentar “publicamente” esse framework que eu venho, desde então, divulgando apenas de forma restrita, em conversas individuais e em cursos fechados.

Gerenciamento de riscos e o problema do “loop infinito da paranoia”

O gerenciamento de riscos tem uma limitação. A gente pode explicar essa limitação fazendo uma analogia com a “Lei da Utilidade Decrescente” da Microeconomia ou, como eu prefiro fazer, usando um conceito que eu chamo de “loop infinito da paranoia”.

Existe um limite, a partir do qual, tentar gerenciar os riscos se torna contraproducente (Lei da Utilidade Decrescente). A energia que colocamos fica, proporcionalmente, muito maior que o resultado que obtemos.

Loop” é uma palavra, em Inglês, que significa “ciclo”. É usada para designar um raciocínio circular na linha “quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”. Quando a gente entra num “loop de pensamento”, ficamos presos e não chegamos a lugar algum.

O “loop infinito da paranoia” acontece quando ficamos tão paranoicos com os riscos que estamos sempre buscando uma proteção adicional (uma “camada de proteção”… aqui já estou dando um spoiler do conceito como um todo).

O loop infinito da paranoia funciona mais ou menos assim: Imagine que você tem um medo irracional de ser abduzido por um disco voador. Aí eu te digo “ok, então passe o resto da vida trancado em casa”. E você “mas pode cair um meteoro na minha casa!”. E eu “então faça um bunker no subsolo e se tranque lá”. E você “mas e se o sistema de ventilação falhar e eu me sufocar?”. E eu “então leve um traje de mergulho e, se a ventilação falhar, você usa o cilindro de oxigênio”. E você “e se o cilindro de oxigênio falhar?”. E eu “ahhh… vai pra ___________ e para de encher o saco!”

Essa conversa se torna um ciclo infinito, que não chega a lugar algum e, usualmente, termina com alguém ficando de saco cheio e mandando o interlocutor (ou mandando a si próprio, se for um diálogo interno) para algum lugar não muito agradável.

A única forma de escapar do loop infinito é estabelecendo um limite para a sua paranoia. Você pode se trancar em casa e, na hora de dormir, se acorrentar na cama para que nenhum extraterrestre te leve. Mas, se ainda assim, você for abduzido, azar… A partir desse momento, você assume o risco, pois buscar “camadas adicionais” de proteção, deste ponto em diante, é algo que vai atrapalhar muito mais do que ajudar.

Quais são as camadas?

As “camadas”, como já deve ter dado para perceber, existem para criar limitações e para impedir o “loop infinito da paranoia”.

O modelo básico pode ser usado para qualquer tipo de risco: à sua saúde, à sua reputação… Mas, aqui, vamos falar dos riscos ao patrimônio e aos investimentos (que foi o tipo de risco para o qual o modelo foi, originalmente, criado).

Camadas coloridas, em formato de pirâmide, representando as camadas de gerenciamento de riscos

Então, o modelo tem quatro camadas, a seguir:

1ª camada: Risco do emissor

Esta é a camada mais básica e fundamental do modelo. Aqui, a preocupação é fazer uma diversificação por emissores de ativos financeiros.

O que se busca gerenciar aqui é, principalmente, o risco da empresa (aplicável a ações, mas que também pode ser aplicado, por analogia, a cotas de empresas fechadas, imóveis, fundos imobiliários e outros ativos de renda variável) e o risco de crédito nos títulos de renda fixa.

Esses riscos são, essencialmente, ligados ao emissor do ativo e são riscos cujos efeitos são, tecnicamente falando, irreversíveis. Uma empresa que vai à falência representa, para o detentor de suas ações, uma perda total. Um calote em um título de renda fixa representa, igualmente, uma perda total.

Para gerenciar este risco, basta (em tese) diversificar e limitar sua exposição máxima por emissor a uma fração do seu patrimônio. Você pode estabelecer, por exemplo, que sua exposição máxima a um único emissor será de 5% do seu patrimônio. Se um dos emissores de títulos em sua carteira “quebrar”, sua perda máxima será essa.

Só que a diversificação, pura e simples, não é o suficiente. Uma carteira de ações com dez ações, igualmente distribuídas (risco máximo de 10%), pode ser considerada uma carteira bem diversificada. Mas, se todas essas ações forem do mesmo segmento (ou segmentos similares), ela fica desequilibrada.

É aí que vamos para a próxima camada, que é a alocação dos ativos.

2ª camada: Risco da classe do ativo

Esta é a camada em que fazemos uma distribuição por classe de ativos para gerenciar riscos específicos como o risco de mercado.

Nesta camada, é possível ter “subcamadas”. Você pode criar uma subcamada de alocação mais ampla dividindo seu patrimônio entre renda fixa e renda variável.

Em uma outra subcamada, você pode dividir seus títulos de renda variável entre ações com potencial de crescimento, ações pagadoras de dividendos e fundos imobiliários (por exemplo). Na renda fixa, pode dividir entre títulos púbicos e títulos privados.

E pode ir subdividindo as classes de ativos, até chegar próximo dos emissores (que é o nível mais baixo – da diversificação “pura”).

Com essas duas camadas, você já fez a diversificação e a alocação dos ativos e, em tese, todos os seus riscos específicos estão cobertos. Porém, os riscos sistemáticos ficam de fora (e aí que entram as camadas seguintes).

3ª camada: Risco da moeda

O risco da moeda é, essencialmente, o risco cambial. É o risco de variações adversas na moeda na qual nossos investimentos estão denominados.

Assumindo que sua carteira de investimentos está no Brasil, em ativos brasileiros, seu risco da moeda é o risco do Real.

Sua carteira pode estar “maravilhosamente diversificada e alocada”. Porém, se acontecer uma grande desvalorização do Real frente ao Dólar, você ficará “pobre em dólares”. Isso significa que, quando você for para a Disney, vai ter que comer hot dog ao invés de ir naquele restaurante bacana em Orlando.

O risco da moeda (ou risco cambial) pode ser, conforme o contexto, um risco sistemático ou específico. Neste contexto, em particular, estamos considerando que é um risco sistemático (não gerenciável através de diversificação).

Leia aqui: Riscos sistemáticos e específicos – Entenda

Porém, vamos “transformar” esse risco em específico e tentar, nesta camada, diversificar por moedas. Imagine, então, algumas moedas relevantes do mundo (moedas fortes, conversíveis). O que você busca, aqui, é diversificar entre moedas e estabelecer uma exposição máxima a cada moeda.

Imagine que você selecionou o Dólar Americano, o Euro, o Franco Suíço, o Iene Japonês e o Real. São cinco moedas, e você pode limitar sua exposição máxima a 20% do patrimônio em cada moeda.

Com isso, você está tratando um risco sistemático como específico (gerenciável através de diversificação) e, em teoria, teria que acontecer algum grande problema, em escala global, para causar um abalo sério em seu patrimônio.

Uma opção a isso seria não diversificar diretamente em moedas, mas fazer hedge com instrumentos cambiais e derivativos.

Só que, aí, teríamos um problema (que é tratado na camada seguinte).

4ª camada: Risco da jurisdição

O risco da jurisdição é aquilo que, em alguns contextos, também é referido como risco-país. Risco-país é, genericamente falando, o risco de um país impor restrições à movimentação de capitais (“prendendo” seu dinheiro) ou de decisões arbitrárias, especialmente na esfera judicial, que possam redundar em sequestro ou bloqueio de seu patrimônio.

Leia aqui: O que é o risco-país

E aqui, é importante ressaltar um detalhe que muitos não observam: O risco da moeda não é a mesma coisa que o risco da jurisdição.

Inclusive, em muitos países do mundo, é possível fazer depósitos e investimentos em moedas diferentes, o que faz com que “moeda” e “jurisdição” não necessariamente coincidam.

Aqui no Brasil (ao menos enquanto escrevo estas palavras), nós temos o chamado “curso forçado da moeda”. Por Lei, todos os depósitos e liquidações financeiras têm que ser feitos na nossa moeda (o real). Não se pode abrir uma conta bancária em dólares, por exemplo, no Brasil.

Mas isso não é uma regra no resto do mundo. Você pode, por exemplo, abrir uma conta em dólares na Inglaterra ou uma conta em Euros na Suíça. Observe que são moedas diferentes em jurisdições diferentes.

Essa distinção é importante pois, em alguns países com mercados financeiros desenvolvidos, é possível fazer investimentos e depósitos em múltiplas moedas. Vamos pegar, como exemplo, a Suíça: Lá você pode fazer transações, basicamente, na moeda que quiser… Você poderia estar totalmente resolvido na camada do risco da moeda, mas com tudo concentrado em uma única jurisdição.

Não há motivos para desconfiar da Suíça, afinal, até o momento (perdoe o trocadilho infame) é um país que vem funcionando como um relógio suíço…

Porém, vai que alguma coisa acontece e a honorável Confederação Suíça (Schweizerische Eidgenossenschaft) se torna a “República Socialista Fundamentalista do Suicistão”… Nunca se sabe!

Por isso, fica como ÚLTIMA camada o risco da jurisdição. Até porque não existem camadas adicionais… Ainda não dá para investir em outros planetas!

O loop infinito da paranoia morre aqui… Qualquer coisa além disso representa o fim da civilização e, se isso acontecer, a sua ÚLTIMA preocupação será seu dinheiro e seu patrimônio…

Para quem é o gerenciamento de riscos em camadas

Ter o patrimônio segmentado nessas quatro camadas não é, exatamente, uma coisa simples. Demanda um nível alto de envolvimento com a gestão do próprio patrimônio e envolve custos.

Quando eu desenvolvi o conceito, eu imaginava que sua aplicabilidade seria, basicamente, para indivíduos e famílias de alta renda, com grande patrimônio e que têm necessidades de gerenciamento de riscos diferenciadas em relação a “pessoas comuns”.
Na época, eu dizia algo como “se você tem um patrimônio líquido de menos de sete dígitos, nem se dê ao trabalho de entender isso”.

Eu dizia isso, inclusive, porque tínhamos, aqui no Brasil, oportunidades que não existiam no exterior (por conta dos juros altos). Ou seja, para quem estivesse na fase de “rentabilizar” o patrimônio, era aqui que deveria se estar. Porém, na realidade atual, os juros brasileiros já não são mais tão vantajosos e o Brasil perdeu sua “grande vantagem” em relação ao exterior.

Então, o gerenciamento de riscos em camadas pode, nos tempos atuais, começar a fazer algum sentido para pessoas de patrimônio menor.

Mas quero ressaltar novamente: adotar este modelo (ou um modelo similar) dá trabalho e envolve custos (ficar tomando conta de dinheiro espalhado pelo mundo não é tão fácil quanto pode parecer). Por isso, para pessoas que têm um patrimônio pequeno (e, neste momento, vou deixar a interpretação do que é “pequeno” por sua conta) pode ser uma coisa antieconômica e cujos benefícios não compensam os custos e o trabalho.

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