11/08/2020 • , • por Andre Massaro

Como “enfiar o pé na jaca” em grande estilo


Um dos grandes problemas do mundo do planejamento financeiro é que ele é governado muito mais por aquilo que “não fazemos” do que pelo que, propriamente, “fazemos”. O planejamento financeiro é construído em cima de restrições e, por essas e outras, acaba não havendo muito espaço para, ocasionalmente, se enfiar o pé na jaca.

Porém, não somos máquinas e, de tempos em tempos, precisamos soltar um pouco as amarras dos nossos gastos, até mesmo para termos um alívio psicológico. Por isso, o “enfiar o pé na jaca” é algo que tem que ser feito de forma estratégica e, como sugere o título deste artigo”, em grande estilo”, para que o prazer seja maior que o sentimento de culpa.

O pé na jaca e o dilema “prazer X culpa”

Enfiar o pé na jaca é uma necessidade. Nenhuma pessoa mentalmente saudável consegue viver uma vida totalmente regrada sem comprometer a própria sanidade. Por isso, por mais que queiramos ser rigorosos em nosso planejamento financeiro, é importante ter em mente (e aceitar como um “fato da vida”) que deslizes vão, inevitavelmente, acontecer.
Então, vamos fazer com que esses deslizes sejam, na medida do possível, “planejados”.

Uma “enfiada de pé na jaca” de respeito é sempre algo que vai envolver algum sentimento de culpa. Enfiar o pé na jaca é, por definição, uma coisa irracional e extravagante. Se não for assim, sequer merece ser considerado uma “enfiada”.

Porém, enfiar o pé na jaca é algo que deve ser encarado como um evento puramente econômico. E quero dizer “econômico” (não financeiro) no sentido de envolver uma relação custo X benefício; Neste caso, a relação é entre o prazer que você vai obter (o benefício), o sentimento de culpa resultante e os riscos aos quais vai se expor (essas duas últimas coisas são os “custos”).

Então, o que você precisa se assegurar é que, ao enfiar o pé na jaca, os benefícios superem os custos e que você tenha um resultado líquido positivo.

Se organizando financeiramente para enfiar o pé na jaca

“Enfiar o pé na jaca”, no contexto das finanças, seria equivalente ao cheat day (“dia do lixo”) no mundo do fitness. Ou seja, você precisa estar minimamente em forma para ser “merecedor” do dia do lixo. Se estiver totalmente fora de forma, vai ter que suar (metaforicamente e, no caso, literalmente) até poder se dar ao luxo de ter um “dia do lixo” regular.

Então, voltando ao nosso contexto financeiro, se você tem dívidas, você não é “merecedor” de uma enfiada de pé na jaca. Aliás, há uma grande probabilidade de você estar nessa situação EXATAMENTE por ter enfiado o pé na jaca no passado…

Se você não tem dívidas, mas também não tem uma reserva de emergências constituída, bem… talvez uma jaquinha bem pequenininha, do tamanho de uma ameixa…

Se você não tem dívidas e tem reserva de emergência, a sua limitação será a construção do seu patrimônio de longo prazo.

Tenha em mente que as enfiadas de pé irão atrasar a construção do seu patrimônio, assim como o “dia do lixo” atrasa a construção do seu corpo ideal. Então, desses recursos usados para a construção do seu patrimônio, defina um percentual para uma “reserva de extravagâncias”.

E qual deve ser esse percentual? Essa é aquela pergunta que só você vai saber responder, pois só você sabe onde quer chegar e, mais importante, quando.

Novamente recorrendo ao exemplo fitness, qual deve ser a periodicidade do seu “dia do lixo”? Dependendo da sua motivação e da sua pressa em atingir o corpo ideal, você poderá fazer um dia do lixo uma vez por semana, uma vez por mês, uma vez por semestre ou nunca…

Qual é o tamanho da sua jaca?

Agora vem uma questão crucial, que é a ordem de grandeza (em termos de valores) da extravagância que você pretende fazer.

Passar uma semana em um resort de luxo, em algum lugar do Mediterrâneo, vai exigir muito mais esforço e sacrifício de sua parte do que, por exemplo, ir a um restaurante caro ou comprar uma roupa de marca.

Então, dentro da sua realidade orçamentária, defina um valor aproximado por determinado intervalo de tempo (por exemplo: 300 reais por mês) para financiar suas extravagâncias.

Dependendo do tamanho da jaca que você queira pisar, talvez você precise ficar um tempo maior se preparando e acumulando os recursos para fazer aquilo que quer com segurança.

Cuidados ao enfiar o pé na jaca

Como vimos anteriormente, as extravagâncias financeiras combinam prazer, culpa e riscos.

A parte do prazer, bem… Acho que essa não precisa explicar.

Quanto à culpa, ela pode ser derivada da sensação de ter feito algo errado (ou “proibido”) ou, então, do remorso (que é comum) pela sensação de que “podia ter feito algo melhor”.

Já os riscos dizem respeito ao comprometimento que essa “enfiada de pé” pode causar nas suas finanças. Dependendo do que você “aprontar” por aí, pode gastar um dinheiro que vai te fazer falta e te criar um problema real.

Do ponto de vista de riscos, o ideal é que a extravagância vá, no máximo, “atrasar um pouquinho” a conquista da sua independência financeira – mas ela JAMAIS deve te colocar em uma situação difícil, em que você pense “gastei aquilo que eu não podia”.

Então, aqui vão algumas dicas na linha de que “já que é para fazer, vamos fazer direito”:

Não comprometa seus planos de longo prazo

O evento de “enfiar o pé na jaca” deve ser algo que, no máximo, vá atrasar um pouco a formação do seu patrimônio desejado ou de qualquer outro plano de longo prazo que você tenha, como a aquisição de um imóvel ou algo que demande grandes volumes de recursos.

Não comprometa suas contas do dia a dia

Aqui pode parecer óbvio, mas, em finanças, a maioria das pessoas se mete em enrascadas por não dar importância ao óbvio…

Então, NÃO GASTE dinheiro que vá te fazer falta no curto prazo, num período de até um ano.

E, já que estamos falando em coisas óbvias, use apenas o dinheiro que você TEM. Fazer dívidas para financiar extravagâncias não é enfiar o pé na jaca… é ser burro.

Crie uma conta separada para esta finalidade

Tomando extremo cuidado para não cair na armadilha da contabilidade mental (clique no link para saber mais), considere abrir uma conta bancária (ou de investimentos) separada para essa “verba de extravagâncias”.

Inclusive, por não se tratar de reserva de emergências, você pode cogitar a possibilidade de investir esses recursos em instrumentos um pouco mais agressivos para, quem sabe, tentar dar uma “esticada” nesse valor.

Remorso e “memorabilidade”

Memorabilidade é a capacidade de algo ser “relembrado” no futuro.

Para diminuir a probabilidade de remorso com suas “enfiadas de pé na jaca”, procure levar em conta a memorabilidade.

Se o objeto da sua extravagância for um bem durável, a memorabilidade estará, provavelmente, assegurada.

Se o seu sonho de consumo é um carro clássico, por exemplo, aquele carro “estará lá”. Você vai vê-lo e ele estará sempre presente em sua memória. Você vai se lembrar da sua extravagância e do motivo pelo qual a fez.

Agora, se o objeto da sua extravagância é uma experiência, priorize uma que tenha grande memorabilidade. Guardar dinheiro e fazer sacrifícios para comer em algum fast food não é algo memorável. Você rapidamente vai se esquecer da experiência e terá a sensação de que jogou dinheiro fora – o resultado será remorso.

Então, considere o fator “memorabilidade” quando decidir enfiar o pé na jaca. Compras ou experiências memoráveis têm menor probabilidade de gerar culpa ou remorso.

Conclusão

Não é realista (e nem saudável) achar que é possível viver de forma totalmente espartana e monástica.

Ocasionalmente, afrouxar um pouco as rédeas e cometer algumas extravagâncias é algo necessário, até para aliviar a pressão psicológica da própria vida.

Porém, esses eventos de “enfiar o pé na jaca” precisam ser pensados e executados de forma “estratégica”, para maximizar o prazer, minimizar o remorso e não colocar suas finanças em risco.

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