10/05/2020 • • por Andre Massaro

O que é trend following


Trend following não é, exatamente, uma técnica ou metodologia para operar nos mercados financeiros: é mais uma “filosofia” ou paradigma de investimentos e de trading.
Por ser um “paradigma”, muitas técnicas e táticas diferentes podem se enquadrar nos conceitos básicos do trend following. E, como vamos ver neste artigo, o trend following é extremamente versátil e permite inúmeras variações.

Definições

Trend following é uma expressão em Inglês que pode ser traduzida, de forma livre, como “acompanhamento de tendências”. Aqui no Brasil, os adeptos desse paradigma costumam se referir na forma original, anglófona.

Também é referido, em alguns círculos e literaturas, como trend trading e parte do princípio de que mercados se movem em tendências (e que essas tendências podem ser exploradas).

Trend following e análise técnica

O trend following é bastante relacionado à análise técnica e usa muitos de seus elementos, como os próprios gráficos e seus tempos (timeframes) e alguns indicadores.

Porém, os adeptos mais “raiz” do trend following (que são chamados de trend followers) não costumam ficar muito felizes quando são chamados de “analistas técnicos”. Eles se veem como uma categoria à parte.

A filosofia básica do trend following

O trend following é totalmente reativo e parte da pressuposição de que não é possível fazer qualquer previsão sobre os preços de mercado. Tudo o que o trend following assume é que os mercados têm dois estados: com tendência e sem tendência. E, quando uma tendência é identificada, deve-se assumir uma posição a favor dessa tendência e “surfá-la” até onde der.

Isso significa que o trend follower nunca vai se questionar se determinado ativo está caro ou barato. A ele, só interessa saber se há uma tendência e se essa tendência é para cima ou para baixo.

São inúmeras as técnicas, métodos e ferramentas que se pode utilizar no trend following, mas todas elas têm duas finalidades básicas: A primeira é definir se há uma tendência em andamento. A segunda é definir os critérios de risco.

O trader, ao identificar a tendência, assume a posição correspondente (comprado ou vendido), respeitando seu limite de risco. A finalização da operação só acontece quando aquela tendência se desconfigurar.

Ou seja, não é o trader que define quando a operação acaba, e sim o próprio mercado. Enquanto a tendência estiver vigente, o trend follower “se deixa levar”. Metas e objetivos de ganho e de tempo são conceitos estranhos à filosofia do trend following.

Os melhores ativos para trend following

Em princípio, é possível aplicar o trend following a, basicamente, qualquer ativo financeiro. Ações, commodities, derivativos, forex… Todos os ativos desenvolvem tendências que, com as técnicas e ferramentas certas, podem ser “operados”.

Porém, os ativos preferidos pelos adeptos “sérios” do trend following são as commodities (representadas por seus contratos futuros) e o forex (que não deixa de ser um tipo de commodity). O trend following, tal qual o conhecemos, nasceu e foi aprimorado nos mercados futuros, onde é possível se operar, com a mesma facilidade, nas duas direções (comprado e vendido) e os contratos podem ser “rolados”, de vencimento para vencimento, sem maiores problemas.

O trend following pode ser usado para ações, porém os resultados não costumam ser muito bons. Ações são fortemente correlacionadas (o que não acontece com commodities) e não é tão fácil operar vendido (“para baixo”).

Opções poderiam, em teoria, ser usadas para trend following. Mas isso raramente acontece, por causa do efeito do theta (uma das chamadas “gregas”, que representa o decaimento do valor de uma opção ao longo do tempo), que inviabiliza operações que podem se desenrolar por prazo indeterminado. Contratos futuros, apesar de terem vencimento (como as opções), não sofrem os efeitos do theta e podem ser renovados indefinidamente.

As ferramentas do trend following

A principal ferramenta é o próprio gráfico, onde se define o tempo operacional (intradiário, diário, semanal etc.). Essa definição vai depender, naturalmente, da preferência do trader.

A segunda ferramenta (ou conjunto de ferramentas) são indicadores para determinar se há uma tendência em andamento. As ferramentas mais populares são os rompimentos de níveis de preços (breakdowns) e as famosas “médias móveis”.

Os rompimentos podem ser de níveis de suporte e resistência, de canais de volatilidade (como Bandas de Bollinger ou Canais de Keltner), de níveis de preços anteriores (por exemplo: “preço máximo dos últimos vinte dias”) entre outros.

Já médias móveis podem ser de todos os tipos e periodicidades. Cabe ao trader testar (através de backtests) quais as parametrizações e combinações ideais.

A terceira ferramenta (ou conjunto) são aquelas associadas ao gerenciamento de riscos. Um trend follower “de verdade” é OBSESSIVO com o gerenciamento de riscos. As principais ferramentas são a limitação de exposição em cada posição (position sizing) e as ordens stop loss.

É bastante comum, no trend following, o uso de “stop móvel” (trailing stop), que vai sendo colocado próximo a níveis de suporte ou resistência ou definido através de indicadores de volatilidade (o ATR – Average True Range, é um dos favoritos).

Porém, o método “de saída” típico é uma movimentação de preços que sinalize uma nova tendência em sentido oposto. Ou seja, se você iniciou sua operação com um cruzamento de médias móveis, idealmente ela deve se encerrar quando as médias descruzarem.

Disciplina e obsessão com gerenciamento de riscos

Conceitualmente, é muito fácil entender o básico do trend following e ele é muito intuitivo: Você identifica uma tendência, “pula pra dentro” e só sai (com lucro) quando a tendência se desconfigurar.

Na teoria é lindo… Na prática, as coisas não são tão simples.

Os mercados se desenvolvem em tendências, mas, na maior parte do tempo, os ativos financeiros estão meio “perdidos”, fazendo movimentações erráticas ou, como se diz no jargão, “andando de lado”.

Nesses períodos em que os ativos estão sem rumo, é muito comum que eles emitam sinais falsos de rompimentos e de início de novas tendências. Por conta disso, o trader acaba entrando em muitas operações que se revelam falsas e acabam acionando o stop loss, gerando perdas (ainda que pequenas).

O problema é que um monte de pequenas perdas acaba virando uma grande perda… E o índice de acerto do trend following NÃO é bom. Baseado na minha experiência pessoal (e de outros traders que já conheci e estudei), um BOM sistema de trend following pode gerar operações perdedoras entre 70 a 80% das vezes.

Se os riscos não forem controlados de forma obsessiva, o drawdown da carteira fica ficar bastante alto e a rentabilidade geral da estratégia fica comprometida.

A frequência de acertos é muito baixa, mas quando uma operação “dá certo”, ela pode pagar por muitas que deram errado e ainda sobra. Só que, até chegar nessa operação “redentora”, o trader pode acabar quebrando no meio do caminho. Por isso a preocupação com o gerenciamento de riscos (e, especialmente, com o position sizing) é obsessiva.

Não é para qualquer um…

Por conta dessa baixa frequência de acertos, é preciso uma “disciplina de ferro” para operar com trend following. Um trend follower pode ter inúmeras operações consecutivas com perdas antes de ter um grande acerto.

Isso exerce, no trader, uma pressão psicológica e uma angústia imensas. Muitos trend followers, após uma sequência de perdas, acabam perdendo a confiança em seus métodos e “avacalhando tudo”, subvertendo as regras que eles mesmos criaram. E isso, frequentemente, termina em remorso e arrependimento. Na hora que o trader perde a fé no seu método e resolve jogar tudo para o alto, é a hora que o mercado resolve andar e ele ficou de fora…

Se você não tem disciplina e consistência, trend following NÃO É PARA VOCÊ. Se você tem necessidade de dinheiro frequente e quer operar com metas de ganho por período, trend following NÃO É PARA VOCÊ. Se você é uma pessoa impaciente e que tem dificuldade em seguir regras, trend following NÃO É PARA VOCÊ.

Mais um pouco sobre gerenciamento de riscos

Como a frequência de acertos é muito baixa, o ideal, para tentar “suavizar” a curva de capital, é operar com vários ativos e formar uma “carteira” de operações.

Porém, para isso funcionar, o ideal é que esses ativos sejam descorrelacionados (atenção, tem uma pegadinha aqui! Já vou explicar…) para aumentar as chances de êxito.

É por isso que os trend followers “de verdade” preferem mercados de commodities (agrícolas, energia, moedas etc) onde há grande descorrelação, e não os mercados acionários que, mesmo em economias desenvolvidas e diversas, têm correlação muito forte.

A tal pegadinha que eu falei acima é a seguinte: é “descorrelação” e não “correlação inversa”. Os modelos-padrão de carteiras e a própria Teoria Moderna do Portfolio falam que devemos buscar ativos com correlações invertidas (um sobe e outro cai) para anularmos a volatilidade. No trend following, a direção não importa (para baixo ou para cima, dá na mesma…), o que importa é haja tendência.

Ao buscar ativos descorrelacionados, se aumenta a chance de que um ou mais desses ativos esteja se movimentando em uma tendência (pois esses ativos não tem “nada a ver” entre eles).

O que não queremos, no trend following, é que fique “tudo parado”. Calmaria é a morte para o trend follower.

Conclusão

O trend following é uma filosofia (e não um método específico, como foi discutido aqui) que “tem lógica”. Mais que isso, ele tem um histórico positivo (especialmente nos EUA, onde nasceu e foi aprimorado) mas, como vários paradigmas e filosofias de investimento (vide, por exemplo, o Value Investing), não vem apresentando resultados tão bons nos últimos anos.

Isso pode ser devido a um aumento de eficiência dos próprios mercados, provavelmente por causa do uso intensivo da tecnologia, que identifica e “neutraliza” rapidamente boa parte das ineficiências que, antigamente, podiam ser exploradas por investidores e traders comuns.

Seja como for, trend following é, como já foi ressaltado, uma filosofia (ou um “conceito”, se preferir), e ainda é possível desenvolver métodos e sistemas (com boas chances de sucesso) baseados nesses princípios básicos.

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