20/12/2020 • • por Andre Massaro

Entenda o que é “Incesto financeiro”


O nome “incesto financeiro” é bastante pesado e, pode-se dizer, um pouco repulsivo… Mas é um nome real, usado para designar um fenômeno que acontece no mundo das finanças pessoais.

E que diz respeito, diretamente, à educação financeira infantil.

Definindo o incesto financeiro

Incesto financeiro é o comportamento abusivo dos pais em relação aos filhos pequenos, em assuntos relativos a dinheiro, de forma DIRETA ou INDIRETA (mais sobre isso adiante).

É uma forma de “usar” os filhos pequenos, atribuindo a eles papéis e responsabilidades que, em uma dinâmica familiar minimamente funcional, eles não deveriam ter.

A origem do nome “incesto financeiro”

O nome “incesto financeiro” foi cunhado por um americano chamado Brad Klontz, que é psicólogo e planejador financeiro certificado (CFP).

O nome é um pouco chocante, tanto que o próprio autor, posteriormente, renomeou o fenômeno para algo como “entrelaçamento financeiro” (financial enmeshment, em Inglês). Só que já era tarde demais – o nome já tinha “pegado”…

Eu confesso que fico um pouco desconfortável com o nome e hesitei bastante para escrever este artigo, com receio de atrair, para o meu site, um tipo de público que eu considero indesejável.

No mundo das finanças, acaba acontecendo de existir algumas expressões e jargões que usam termos que estão associados a coisas e comportamentos que, digamos, não têm muito a ver com finanças…

É o caso, por exemplo, de swing trade (que é uma modalidade mais especulativa de operar nos mercados financeiros). Eu sei, graças às ferramentas de análise de tráfego na internet, que um número significativo de pessoas acaba caindo nos meus textos sobre swing trade, ao procurarem por swing em um contexto de “estilo de vida alternativo” (a propósito, tenho até uma categoria dedicada a artigos sobre “estilo de vida” no site, mas sempre abordando pelo lado das finanças, dos negócios e do empreendedorismo – o lado do entretenimento adulto não é muito a minha área de expertise…).

Isso é ruim para mim (aumenta o bounce rate do meu site) e ruim para quem acessou o site (pois não encontrou a informação que estava procurando).

Estou consciente de que, ao escrever sobre incesto (ainda que financeiro), poderei acabar, de forma não intencional, atraindo pessoas que sofreram abusos mais “concretos” e estão em busca de ajuda (e, neste caso, lamento ter muito pouco a contribuir) ou, então, os “pervertidos de plantão”, a quem já convido a caírem fora de meu site e não voltarem mais…

Bem, já fiz o meu disclaimer – agora podemos prosseguir com as explicações sobre incesto financeiro.

Como o incesto financeiro se manifesta

Como havia dito antes, o incesto financeiro é o abuso financeiro cometido por pais em relação aos filhos pequenos, e ele pode acontecer de forma DIRETA ou INDIRETA.

O incesto financeiro de forma DIRETA é quando o filho é envolvido, diretamente, em uma situação da qual ele não deveria fazer parte.

Já a forma INDIRETA é quando a criança é “usada” pelos pais, sem que esteja diretamente inserida na situação.

Talvez, fique mais fácil se vermos alguns exemplos:

Incesto financeiro direto

  • Forçar crianças a trabalhar (ou fazer coisas que interfiram na dinâmica da vida infantil) para ganhar dinheiro e complementar a renda do lar.
  • Envolver crianças pequenas em decisões financeiras importantes (e, depois, compartilhar com elas as consequências dessas decisões, especialmente se forem consequências negativas).
  • Ter episódios de descontrole emocional, por causa de dinheiro, na frente de filhos pequenos.
  • Culpar as crianças pelo desempenho financeiro precário da família, sugerindo que os problemas financeiros da família são resultantes dos desejos ou das necessidades dos filhos (na linha “eu me sacrifico e sofro para que você possa ter o melhor”).
  • Pedir para que os filhos peçam dinheiro (ou outro tipo de ajuda material) para outras pessoas, partindo da pressuposição de um rosto infantil vai “amolecer” as pessoas.
  • Pedir para que filhos pequenos falem com cobradores de dívidas e empregadores, para tentar “sensibilizá-los” a flexibilizar obrigações financeiras (no caso dos cobradores) ou darem aumentos e vantagens (no caso de empregadores).

Incesto financeiro indireto

  • Usar filhos pequenos para manipular outras pessoas, tentando se eximir de responsabilidades ou obter vantagens (especialmente com cônjuges e ex-cônjuges – mas isso se aplica, também, a parentes, amigos, empregadores, credores, juízes, autoridades, mídia, opinião pública etc.).
  • Usar problemas e restrições financeiras para colocar os filhos “contra” alguém (tipicamente um cônjuge ou ex-cônjuge). Na linha “você não vai poder passear com seus amigos porque o canalha do seu pai – ou a puta da sua mãe – não te deu dinheiro para isso!”.
  • Usar os filhos como pretexto ou “bodes expiatórios” em brigas de casais.

Todas essas formas de abuso representam, de uma forma ou de outra, uma “violação” dos papéis esperados de pais e filhos.

Inclusive, uma das razões disso se chamar “incesto financeiro” é que a criança pequena acaba sendo colocada na posição de “cônjuge”, assumindo culpas, responsabilidades e consequências na família que não deveriam ser dela (e sim dos pais ou cônjuges).

As causas do incesto financeiro

A maior parte dos casos de incesto financeiro acontece de forma não-deliberada e inconsciente. Ou seja, os pais sequer “percebem” que estão cometendo incesto financeiro.

Ou, pior que isso, os pais são vítimas de seus próprios vieses cognitivos, como o “viés de ponto cego” ou o “erro fundamental de atribuição” (ou viés de auto conveniência), em que conseguem enxergar o incesto financeiro nas outras famílias, mas não em sua própria.

As causas são inúmeras e difusas. Algumas explicações mais óbvias podem estar relacionadas com imaturidade dos próprios pais, ou mesmo traços de psicopatia, em que os pais manipulam e culpam ou próprios filhos indevidamente, sem dar grandes demonstrações de remorso e empatia.

Seja como for, o incesto financeiro não parece ser um problema “em si”, e sim um sintoma de algo maior.

Inclusive, um estudo acadêmico de 2016, de pesquisadores da Kansas State University e Creighton University, publicado no Journal of Financial Therapy, aponta que o incesto financeiro é fortemente correlacionado com outros problemas financeiros, como consumo compulsivo, desorganização financeira crônica, vício em jogos e apostas entre outros.

Consequências do incesto financeiro

O incesto financeiro pode ter consequências de longo prazo (potencialmente permanentes) em crianças que passam por esse tipo de experiência, gerando adultos com dificuldades em lidar com dinheiro e com as próprias finanças.

Entre as potenciais consequências do incesto financeiro estão:

Incesto financeiro e educação financeira infantil

O incesto financeiro não é uma coisa fácil de resolver.

Por exemplo: fazer filhos pequenos trabalharem é, notoriamente, uma das manifestações do incesto financeiro. Mas o que dizer para aquelas famílias em situação de extrema pobreza, que REALMENTE precisam colocar os filhos para trabalhar (e a opção a isso é morrer de fome)?

Vão dizer para essas pessoas: “Ninguém mandou vocês terem filhos”? Ou “matem seus filhos ou os deem para adoção”?

Como resolver uma situação assim?

E, no caso da educação financeira infantil (um tema que está “na moda”), onde está a linha divisória que separa as práticas de educação financeira no lar do incesto financeiro?

É um ponto basicamente “pacificado”, na educação financeira infantil, que as crianças devem ter alguma participação na vida financeira da família (até para já irem entendendo a dinâmica das finanças e do dinheiro).

Mas em que momento essa participação da criança nas questões financeiras deixa de ser “meramente educacional”, e avança para papéis e responsabilidades que a criança não deveria assumir?

Aparentemente, ainda não temos respostas muito satisfatórias para essas questões…

Conclusão

O incesto financeiro é uma forma de abuso financeiro dos pais em relação aos próprios filhos – especialmente quando são crianças.

Ele pode acontecer de forma direta (quando a criança é abusada diretamente) ou de forma indireta (quando a criança se torna um “veículo” para se abusar financeiramente de um terceiro).

Um dos grandes problemas (senão o maior) do incesto financeiro é que a maioria dos pais que o comete não consegue “perceber” que está fazendo isso.

Porém, é algo que pode deixar marcas profundas nas crianças, levando-as a se tornar adultos problemáticos e disfuncionais no trato do dinheiro e das próprias finanças.

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