07/08/2020 • , , , • por Andre Massaro

O que é o “culto à carga”


O culto à carga é um exemplo clássico de como algumas pessoas podem ser guiadas por seus vieses cognitivos e por “pensamento mágico”. É um tipo de comportamento ritualístico e pseudocientífico que pode afetar, basicamente, qualquer pessoa. Mas que é particularmente observável em empreendedores e investidores.

Imagine algumas situações:

  • O fundador de uma startup que começa a imitar os “ídolos” do empreendedorismo, como Steve Jobs, Elon Musk entre outros. Passa a adotar os mesmos discursos, se vestir do mesmo jeito… Ainda que seu negócio sequer consiga parar em pé.
  • O sujeito que resolveu virar trader no mercado financeiro, e começa a adotar os mesmos trejeitos e cacoetes daquelas pessoas que, na visão dele, têm sucesso no mercado financeiro. Começa a falar os mesmos jargões, quer colocar quatro monitores em sua estação de trabalho (sem nem saber para quê), passa a vestir aqueles coletinhos que deixam a pessoa parecendo um boneco Michelin e adota outros comportamentos ritualísticos, sem qualquer finalidade que não seja a de dar uma “aparência” de que aquela pessoa é um trader de sucesso.
  • O empresário que é dono de uma empresa desprovida de qualquer tipo de glamour (um depósito de materiais de construção, uma empresa de limpeza de fossas ou algo do gênero), mas insiste em ter presença em mídias sociais e um canal de vídeos, afinal, “todas as empresas estão fazendo isso”.
Boneco da Michelin

Essas três situações descritas são exemplos de “culto à carga” aplicado aos negócios e aos investimentos.

A origem do Culto à Carga

O fenômeno do culto à carga deve existir desde que a própria Humanidade existe. Porém, com esse nome, ele passou a existir após a Segunda Guerra Mundial.

Na Segunda Guerra Mundial, os americanos e os japoneses combateram no Pacífico, e inúmeras ilhas, especialmente na região da Melanésia (próximas à Austrália), foram palcos de combates e serviram de bases militares.

Essa movimentação militar “bagunçou” a rotina dessas ilhas – muitas delas habitadas por povos nativos. Esses nativos observavam a movimentação, com navios e aviões saindo e chegando, trazendo armas, comida, mantimentos e remédios.

Os militares, frequentemente, compartilhavam esses alimentos e remédios com os nativos que, ocasionalmente, os ajudavam como guias ou fazendo outros serviços. Para os nativos, foi uma fase de abundância como nunca vista.

Só que a guerra acabou… Os militares foram embora e os aviões cheios de comida nunca mais voltaram.

Avião de madeira

Os nativos começaram, então, a imitar (dentro de seu entendimento limitado de toda aquela tecnologia) aquilo que os militares faziam, na expectativa de que, fazendo aqueles rituais, a comida voltaria a “vir do céu”.

Avião de madeira com nativos do Pacífico

Eles fizeram, então, torres de madeira e de palha (que se pareciam com radares e torres de controle de aeroportos), aviões de madeira (estáticos, naturalmente), fones de ouvido com cocos e outras coisas do gênero.

Ficavam falando coisas sem sentido em rádios imaginários, tudo na expectativa de que a “carga” (daí no nome) viria do céu, como vinha na época da guerra.

Avião de madeira com nativos do Pacífico

Obviamente, a “carga” nunca mais voltou, mas os nativos não perderam a fé e mantiveram os rituais por muito tempo. Inclusive, na região do Pacífico, alguns “cultos à carga” se mantém até os dias atuais.

Aplicações do culto à carga na vida moderna

O termo “culto à carga” se tornou popular, fora do contexto de antropologia (que estudava essa questão dos nativos do Pacífico) pelo físico Richard Feynman que criou o termo “ciência culto à carga” (cargo cult science), para se referir a teses pseudocientíficas, que se “travestiam” de ciência, mas eram, na verdade, um verdadeiro atentado à metodologia científica.

E, com essa descrição do culto à carga nas ciências (ainda mais feita por uma figura tão popular e respeitada como Richard Feynman), foi apenas um “pulo” para que o culto à carga fosse identificado, também, em contextos sociais e de negócios.

Então, podemos dizer que uma boa parte dos comportamentos de imitação, com características ritualísticas, se enquadra como culto à carga. Desde o sujeito totalmente desprovido de sex appeal que passa a imitar o James Bond, a mocinha que quer usar o mesmo cabelo de sua atriz favorita ou o empresário que quer imitar as excentricidades de algum gênio da tecnologia do Vale do Silício…

Tudo isso são exemplos de comportamentos que as pessoas copiam de alguém, na expectativa de que as coisas boas que acontecem com aquelas pessoas acontecerão com elas também.

Culto à carga e sinalização

Imitar comportamentos e seguir certos códigos não é nada de muito exótico. Aliás, faz parte daquele “pacote” que faz, de nós, seres humanos.

Porém, o culto à carga tem um componente de “pensamento mágico”, que envolve fé em algo invisível. No culto à carga, existe a crença de que um ritual vai levar a um certo resultado, exatamente como se faz em um contexto religioso, onde se acende uma vela para determinada entidade e se espera que algo aconteça.

É diferente de quando imitamos ou seguimos certos códigos para “sinalizar”. A sinalização (um conceito da Biologia, que foi apropriado pela Economia) não tem nada de mágica nela. São ações deliberadas que tomamos para comunicar, a outras pessoas, o nosso status social.

Por exemplo, uma determinada pessoa pode ser rica, e ela vai dirigir um “carro de rico”, vai morar em uma “casa de rico” e vai fazer coisas que as pessoas ricas fazem, não para “atrair riqueza”, mas sim para deixar bastante claro, para as outras pessoas, que ela é alguém de status superior.

Inclusive, sobre essa questão da sinalização, tem um artigo interessante aqui no site, sobre como as pessoas podem parecer ricas (sim, “parecer” – não necessariamente “ser”).

O culto à carga já é aquela postura ingênua e mística de “gasta que o dinheiro vem”, reforçada por alguns gurus da autoajuda e por gente que quer que você gaste aquilo que você não pode.

Culto à carga nos negócios e nos investimentos

Alguns exemplos de culto à carga nos investimentos:

  • Querer fazer aquilo que fazem grandes nomes das finanças, como Warren Buffett e Peter Lynch, que operam bilhões de dólares em condições absolutamente inalcançáveis para pessoas comuns. Ressaltando que os métodos desses investidores raramente são divulgados ao público – eles dizem apenas “aquilo que eles querem que você saiba”.
  • Se vestir e adotar trejeitos das pessoas que trabalham em Wall Street ou na City de Londres. Frequentar o mesmo tipo de lugar e fazer os mesmos tipos de programas sociais, como se isso fosse, magicamente, “transformar” alguém em uma dessas pessoas.
  • Ficar repetindo mantras e frases feitas, como “preço não importa”, “a tendência é sua amiga”, “ações são para o longo prazo”, sem nem ao menos se dar ao trabalho de investigar se os argumentos por trás dessas frases fazem algum sentido.
  • Investir cegamente em algum ativo, na presunção de que os “tubarões” do mercado estão fazendo isso.

Exemplos de culto à carga nos negócios:

  • Investir em presença digital e mídias sociais porque “todo mundo está fazendo isso”.
  • Investir em ferramentas tecnológicas “da moda” e modelos de gestão, sem saber exatamente para que servem.
  • Oferecer benefícios irrelevantes e de baixo valor aos seus funcionários, inspirado nas empresas “modernosas” (dica: seu funcionário não está tão interessado em andar de patinete dentro do escritório, ter um massagista atendendo na hora do almoço ou em poder levar o cachorro para o trabalho – talvez ele prefira receber o dele em dinheiro…).
  • Participar de eventos, congressos e meetups que não agregam nenhum valor ao seu negócio, mas “as pessoas bacanas vão lá”.

Conclusão

O culto à carga é um viés cognitivo, uma forma de “pensamento mágico” e não deve ser confundido com sinalização, que é uma coisa deliberada e “estratégica”.

Ele resulta de uma falta de visão sobre causas e efeitos dos eventos, e pode levar, entre outras coisas, a desperdício de recursos, perda de tempo, frustrações e, em algumas situações, àquela dolorosa sensação de descobrir que “bancou o idiota”.

E existe alguma forma de evitar o “culto à carga”? Sim, existem formas de evitar, e todas elas passam por uma avaliação de nossos padrões de pensamento, tentando identificar os vieses cognitivos e as falhas de raciocínio.

E, nisso, uma das melhores ferramentas é o pensamento crítico, que é a aplicação da lógica informal para analisar argumentos. É a melhor ferramenta para desfazer (ou tentar desfazer) confusões entre causas e efeitos.

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