08/07/2020 • • por Andre Massaro

O que é desdobramento (ou split) de ações


O desdobramento de ações (também conhecido pelo nome em Inglês “split”) é um processo no qual as ações de uma empresa “se dividem”, gerando um número maior de ações, porém, sem aumentar o capital da empresa.

Basicamente é o seguinte: Você tem uma ação que vale 30 reais. Um belo dia, você olha em sua conta e, no lugar daquela ação, tem três ações de 10 reais. Ou seja, a ação se dividiu em três, mas a soma dos valores permanece a mesma da ação original.

Qual é o “preço ideal” de uma ação?

A resposta simples e direta é: “não existe preço ideal”. O preço de uma ação pode ser qualquer um; e o preço nada tem a ver com o valor.

É um erro comum, especialmente de investidores iniciantes, confundir preço e valor, achando que uma ação de 10 reais vale menos que uma de 20. Esse raciocínio estaria correto se as duas ações fossem idênticas, com as mesmas características, os mesmos direitos de proventos etc.

É a mesma coisa que dizer que o Iene japonês vale menos que o Dólar americano (um Iene equivale a, aproximadamente, um centavo de dólar). Nominalmente, o Iene vale menos. Mas o mesmo BigMac que custa 4 dólares dos EUA não custará 4 Ienes no Japão.
Por isso que se usa outros tipos de métricas, associando preço ao lucro (como o famoso índice P/L) ou associando preço aos dividendos (como o Dividend Yield) para determinar o valor.

O preço, por si só, não diz nada… Saber que uma ação tem preço de 10 e a outra de 20 não tem nenhum significado.

Porém, quando o preço de uma ação se torna excessivamente alto (ou baixo), isso vira um problema. Um preço demasiadamente alto se torna um entrave para pequenos investidores, ou mesmo para grandes investidores que estão negociando pequenos lotes, e isso prejudica (e muito) a liquidez da ação.

Da mesma forma, se o preço fica excessivamente baixo (por exemplo, se ela passa a ser cotada em centavos e vira uma penny stock), cada variação de preços se torna, em termos percentuais, muito grande. Isso aumenta demais a volatilidade.

Por isso, as empresas procuram deixar suas ações dentro de uma certa “faixa”, onde o preço não seja baixo demais (o que aumenta a volatilidade) e nem alto demais (o que diminui a liquidez).

Como acontece o desdobramento

A iniciativa de fazer um desdobramento de ações é do Conselho de Administração da empresa. Essa iniciativa parte da percepção de que o preço das ações está alto demais e que está prejudicando os volumes negociados.

Uma vez que se chega num consenso sobre a necessidade do desdobramento, o próximo passo é definir qual vai ser a proporção. Nesta fase, se define quantas ações “novas” a ação antiga vai gerar.

Aí, define-se uma data para o desdobramento, se toma as providências operacionais com as bolsas onde as ações são listadas e os acionistas (e o mercado) são avisados.

No dia do desdobramento, os acionistas simplesmente já “acordam” com a nova quantidade de ações em suas contas de custódia. É um processo automático.

O ajuste dos preços após o desdobramento de ações

O desdobramento de ações é um evento que tende a se repetir, várias vezes, ao longo da existência de uma empresa de capital aberto. À medida que as ações se valorizam, elas vão precisando de sucessivos desdobramentos para colocarem seus preços em condições mais favoráveis de mercado.

E, a cada vez que ocorre um desdobramento de ações, os preços históricos são ajustados na mesma proporção, para não distorcer gráficos e outras ferramentas de análise baseadas nesses preços históricos.

Observe, por exemplo, este gráfico histórico das ações ordinárias da Petrobrás (cortesia do portal TradingView).

Os preços são ajustados por todos os desdobramentos que ela sofreu nos últimos anos.
Se você observar atentamente o começo da escala (em abril de 2000), verá que o preço da ação está em 4 centavos.

Gráfico com preços das ações da Petrobrás, desde o ano 2000
Gráfico das ações da Petrobrás (PETR4)
Clique para ver uma versão ampliada

Só que, em nenhum momento, essa ação valeu 4 centavos. O que vemos aqui é o preço do ano 2000 ajustado por todos os desdobramentos que a ação sofreu.

Outras vantagens do desdobramento de ações

Além da vantagem óbvia e declarada (aumentar a liquidez), existe uma outra vantagem de natureza psicológica, associada à percepção de valor do investidor.

Como já foi comentado, é muito comum a confusão entre preço e valor. As pessoas tendem a fazer, de forma automática e inconsciente, avaliações e julgamentos baseadas em números absolutos, e não em indicadores relativos.

Por isso, quando a ação sofre desdobramento, muitos investidores passam a assumir que ela está “barata” e, supostamente, essa percepção pode impulsionar novas altas.

Ou seja, fazer um desdobramento se torna uma oportunidade de se beneficiar (de forma intencional ou não) do comportamento irracional do investidor.

Grupamento – o desdobramento de ações “ao contrário”

Como vimos ao longo deste artigo, não existe um “preço ideal” de uma ação. Mas se sabe que preços muito altos ou muito baixos não são uma coisa boa.

Quando o preço de uma ação cai a níveis demasiadamente baixos (especialmente na casa dos centavos, virando uma penny stock), o Conselho de Administração pode determinar que as ações sejam “agrupadas”.

O processo de grupamento é o exato oposto do desdobramento – se cria uma nova quantidade de ações SEM alteração do capital. No caso do desdobramento, a quantidade de ações aumenta. No grupamento, diminui.

Então, dez ações de um real podem dar origem a uma única ação de dez reais.
E uma curiosidade: O desdobramento chama-se, em Inglês, de “split” (que significa, literalmente, “divisão”). Aqui no Brasil, inclusive, é comum se usar o jargão em sua forma original.

Mas a “bizarrice” digna de nota é que usamos, também, o termo “inplit” para definir o grupamento. “Inplit” (que, supostamente, seria o contrário de split) é uma palavra que não existe em Inglês, e foi inventada por nós, brazucas…

É nossa contribuição (aparentemente não aceita) ao nobre vernáculo shakespeariano… Em Inglês, o grupamento é chamado de “reverse split” (e não “inplit”).

Fundos e outros ativos também sofrem desdobramento e grupamento

Não são só empresas que têm seus títulos de propriedade (as ações) sujeitas a mudanças de quantidade. Cotas de fundos de investimento, especialmente fundos imobiliários e ETFs (que são negociadas em bolsas) também podem passar por desdobramentos e grupamentos – pelos mesmos motivos das ações.

Conclusão

O desdobramento de ações (e seu análogo reverso, o grupamento) é um evento corporativo absolutamente normal e corriqueiro na vida de uma empresa de capital aberto.

Para o pequeno investidor, um desdobramento é um evento majoritariamente positivo, que representa aumento de liquidez das ações e possibilidade de novas valorizações, pelo “efeito psicológico” comentado neste artigo.

Provavelmente, a única inconveniência de um desdobramento, para o pequeno investidor, é a necessidade de atualizar registros – inclusive registros fiscais, como a declaração de bens no Imposto de Renda.

Isso apenas reforça a necessidade de o investidor manter seus registros, preferencialmente em planilhas ou aplicativos, onde possam ser facilmente ajustados em caso desse tipo de evento.

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