17/05/2020 • • por Andre Massaro

Ilusão de controle – O que é e como combater


A ilusão de controle é um dos vieses cognitivos que mais afeta investidores e empreendedores em geral. Ele se manifesta na pressuposição de que podemos antecipar eventos que são, essencialmente, aleatórios. Mas que isso, acreditamos que podemos, de alguma forma, interferir nesses eventos.

A ilusão de controle e a falácia da narrativa

Nassim Taleb, um ex-operador de derivativos financeiros que virou “filósofo matemático” cunhou uma expressão chamada “falácia da narrativa”.

Quando acontecem eventos imprevistos, nós olhamos para o evento em retrospectiva e “juntamos os pontos”. Quando fazemos isso, nós criamos uma história para nós mesmos (uma narrativa, daí o nome) que faz com que aquilo que aconteceu pareça óbvio (em retrospectiva, naturalmente).

É por isso que, nos noticiários econômicos que passam á noite, vemos analistas e experts explicando o que aconteceu de um jeito que nos sentimos até meio idiotas por não termos antecipados.

“O dólar subiu hoje por conta das tensões entre EUA e China”… Mas era óbvio! “A bolsa caiu por causa do vazamento de uma gravação comprometedora ao governo”… Como não vimos isso antes?

Os “engenheiros de obras prontas” podem ser muito convincentes…

O problema dessas narrativas é que elas são tão bem contadas que nos fazem acreditar que é fácil antecipar eventos futuros.

Inclusive, de acordo com o próprio Taleb, a presença de uma narrativa, que explica um evento imprevisto e de alto impacto, é uma das características daquilo que se chama de “cisne negro”.

A ilusão de controle é um viés cognitivo “amplo”, e muitas ações e atitudes podem ser enquadradas nesse viés. Porém, a principal manifestação é essa crença de que o futuro é previsível (ou controlável) baseado no nosso conhecimento de eventos passados.

A ilusão de controle e o excesso de informação

Na minha visão, a ilusão de controle (que é um viés cognitivo que a humanidade carrega, consigo, desde que ela existe) e o excesso de informações que temos no mundo atual andam lado a lado.

O excesso de informações potencializa a ilusão de controle, pois, como temos “muita informação” sobre o que já aconteceu, passamos a acreditar que essa informação adicional nos dá algum tipo de vantagem.

O problema é que, por maior que seja o volume de informação disponível, toda essa informação é sobre o passado ou, no máximo, sobre o presente. A tecnologia que nos permitiu ter toda a informação do mundo com um clique do mouse ainda não descobriu um jeito de nos trazer a informação sobre eventos futuros.

Temos uma (falsa) sensação de que, com mais volume de informação, temos uma capacidade maior de antecipar e controlar o futuro. Só que os grandes eventos do mundo têm um grande componente de aleatoriedade e de previsibilidade.

Um exemplo de ilusão de controle aplicado ao mercado financeiro

Vamos imaginar que a gente queira, de alguma forma, antecipar qual vai ser a direção das taxas de juros do Brasil. Aqui, no Brasil, nós temos diversas ferramentas que nos dão uma projeção sobre o que vai acontecer com os juros. Entre elas o mercado futuro de juros (o “DI Futuro”), o Relatório Focus (baseado em pesquisas com agentes do mercado financeiro e divulgado pelo Banco Central) e a curva de juros dos títulos públicos.

As três fontes de informação dizem, basicamente, a mesma coisa. E, apesar de serem coisas diferentes, todas elas refletem a mesma coisa: Expectativas das pessoas.

Um analista pode achar (aqui é a ilusão de controle funcionando…) que olhar as três fontes de informação vai permitir tomar uma decisão mais “acertada” do que olhando uma só. Só que isso é falso, pois todas as informações refletem a mesma coisa, que são as expectativas dos agentes econômicos.

Se der uma “dor de barriga” na economia e as expectativas mudarem, todas as fontes de informação mudarão do mesmo jeito. Ou seja, não há uma “vantagem adicional” relevante em se ter mais informações.

Outro exemplo são investidores e traders que procuram ter todo o tipo de informação disponível simultaneamente. Um investidor pode assinar três newsletters de analistas de investimentos, ter três televisões na sua sala de trabalho (cada uma ligada em um canal de notícias) e ter quatro monitores em seu computador, com informações em tempo real sobre o mercado financeiro.

Qual a característica em comum em toda essa informação? TODA essa informação é do PASSADO. Não faz diferença prática (e, se fizer, será uma diferença marginal) usar um ou cinco serviços de informações financeiras simultaneamente. No entanto, esse excesso de informação leva à ilusão de controle; a ilusão de controle leva ao excesso de confiança (que é um outro viés cognitivo) e o excesso de confiança leva a correr riscos excessivos (que podem levar a grandes perdas).

A ilusão de controle na gestão dos negócios

Uma das maiores manifestações da ilusão de controle nos negócios é o planejamento rígido envolvendo eventos externos.

Empresas e seus gestores são levados, frequentemente, a fazer planos e projeções extremamente agressivos, que negligenciam completamente mudanças no ambiente econômico, institucional, social ou tecnológico.

Planejamentos são, como regra geral, uma ferramenta para orientar ações, e não uma descrição monolítica daquilo que “vai acontecer”. Você pode fazer um planejamento para que sua empresa aumente suas vendas em 100%, mas, quando isso acontece, há muito mais “sorte” do que os autores do plano gostam de admitir.

Pessoas que sobrem da ilusão de controle (todo mundo sofre, mas existem diferenças de graduação) tendem a desprezar a aleatoriedade e adoram dizer coisas como “sorte não existe” (só que existe…).

A ilusão de controle no desenvolvimento pessoal e profissional

Assim como empresas, indivíduos tendem, às vezes, a fazer planos rígidos, na presunção de que o futuro é previsível e que “basta seguir os passos certos”.

Em um nível individual, a ilusão de controle é fortemente alimentada pela indústria da autoajuda, que se apoia em “receitas de bolo” e em biografias de pessoas de sucesso, vendendo a ideia de que “basta seguir esse roteiro e o sucesso será inevitável”.

É, novamente, a crença de que podemos controlar os eventos futuros. Só esqueceram de avisar que nem mesmo aquela pessoa que teve grande sucesso (e que hoje virou exemplo para os outros) sabe ao certo como teve aquele sucesso… Obviamente, se você perguntar, ela vai te contar uma história maravilhosa, em que tudo faz sentido e fica evidente que aquele sucesso iria acontecer (é a tal “falácia da narrativa” em ação).

Mas, para cada um que seguiu aqueles passos e teve sucesso, deve ter uns cinquenta que fizeram a mesma coisa e morreram na praia…

Como combater a ilusão de controle

Existem duas coisas (talvez existam mais, mas é o que me vem à mente…) que podem ser feitas para combater a ilusão de controle.

Humildade

A primeira é, digamos, um “exercício de humildade”. A ilusão de controle acontece, em grande parte, por conta de nossa arrogância, nossa prepotência e nossa incapacidade em admitir que, simplesmente, não compreendemos o mundo (pelo menos não tanto quanto a gente gosta de acreditar).

As coisas são mais aleatórias do que parecem. No entanto, algumas pessoas têm uma crença inabalável de que “tudo acontece por uma razão”. Talvez isso até seja verdade, mas, se for, certamente essa razão está um tanto além da nossa compreensão.

Por isso, é mais seguro (até mesmo do ponto de vista de gerenciamento de riscos) aceitar que, simplesmente, não sabemos o que vai acontecer.

Ter humildade nos leva a encarar o mundo e a Natureza com cautela e com respeito, e nos protege do excesso de confiança que pode nos levar a grandes enrascadas.

Informações – menos é mais

Hoje, vivemos em uma época de excesso e abundância de informações. Porém, uma parte significativa dessa informação é apenas “ruído” – informação repetitiva, irrelevante e que está, essencialmente, se referindo a coisas que estão no passado (e não vão te dar grandes insights sobre o futuro).

Por isso, seja seletivo na informação que você consome. Busque menos quantidade e mais qualidade. Excesso de informação não é, necessariamente, “mais informação”, e sim a mesma informação vinda de fontes diferentes, às vezes com pequenas variações por conta de opiniões de quem está veiculando essa informação.

Informação em excesso (especialmente quando essa informação é cheia de “ruído”) não agrega nada, pode nos deixar paralisados e nos fazem ter a falsa sensação de que podemos enxergar o futuro.

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