18/05/2020 • • por Andre Massaro

Existe investimento sem risco?


Existe investimento sem risco? Como em tudo no mundo da Economia e das finanças, a resposta pode ser um grande “depende”…

A resposta rápida para esta pergunta é “não, não existe investimento sem risco”. Porém, uma resposta um pouco melhor elaborada exige algum contexto.

De que tipo de risco estamos falando?

Existem riscos diferentes que impactam os investimentos. A lista de riscos é potencialmente infinita, mas vamos ficar com dois riscos: o risco de mercado e o risco de perda do investimento.

O risco de mercado é o risco que vem da flutuação do preço de um ativo. Ele pode se valorizar ou se desvalorizar e, caso se desvalorize, essa perda só se concretiza se você se desfizer do investimento.

Por exemplo, você comprou uma ação ou imóvel e houve uma desvalorização de 10%. Se você vender agora, é perda na certa. Porém, se não vender, tudo pode acontecer. Esse ativo pode perder ainda mais valor ou pode ir no caminho contrário, subindo como um foguete.

O risco de perda (ou risco de crédito, no caso de renda fixa) é, como o nome sugere, o risco de “perder tudo”, de forma irreversível. Se você comprar uma ação de uma empresa e ela falir, “já era” – o dinheiro está perdido em definitivo. Se você investir em um título de renda fixa que não tenha seguro (como o seguro de depósitos do FGC) ou garantias, e o devedor der calote, adiós.

Essa diferença entre “perda potencialmente temporária” e “perda irreversível” é importante para nossas definições de risco.

O maior pecado do mundo das finanças

No mundo das finanças, é “pecado” dizer que um investimento é sem risco. Inclusive, as próprias autoridades financeiras e as entidades de autorregulação do mercado financeira são extremamente rigorosas e “chatas” com profissionais que falam por aí que determinado investimento é “sem risco”.

Porém, muitos modelos financeiros, utilizados tanto em contextos profissionais quanto acadêmicos, pressupõem que existem “ativos de risco”. Esses ativos são os títulos do Governo (mais sobre eles adiante).

A relação entre risco e retorno

Voltando um pouco às questões “protocolares”, do ponto de vista formal, dizemos que não existem investimentos sem risco. Qualquer investimento terá algum risco pois “investir dinheiro” é permitir que outra pessoa ou agente econômico use seu dinheiro.

Leia aqui: Entenda a relação entre risco e retorno nos investimentos

Quem investe está cedendo o dinheiro, na forma de empréstimos (renda fixa) ou de capital de risco (renda variável) e espera recuperar esse investimento. Porém, sempre que você coloca o dinheiro “na mão de alguém”, existe o risco dele não retornar (não importa o quanto você confie em quem pegou seu dinheiro).

Quais são os investimentos sem riscos

Já sabemos que existem dois tipos de perdas em investimentos: a perda irreversível (decorrente do risco de perda) e a perda potencialmente temporária (decorrente do risco de mercado).

Sabemos, também, que existe uma certa relativização na questão do risco. Formalmente, todo investimento tem risco. Na vida prática, alguns investimentos têm um risco tão remoto que nem vale a pena considerar.

Vamos ver, então, alguns exemplos de investimentos que, NUM CONTEXTO ADEQUADO podem ser considerados sem risco.

Títulos públicos

Títulos públicos são títulos emitidos pelo Governo. No Brasil, apenas o governo federal pode emitir títulos, então já fica subentendido que são títulos federais.

Modelos teóricos que avaliação de investimentos e formação de carteiras, como o CAPM (Capital Asset Pricing Model) e a Teoria Moderna do Portfolio (de Harry Markovitz) presumem a existência de “ativos livres de risco”, que são os títulos de renda fixa emitidos pelo próprio governo.

A razão para essa “segurança” que os investidores têm no Governo é que, salvo raras exceções, eles têm o poder de (se tudo mais falhar) emitir dinheiro.

Governos têm, em geral, uma dívida externa (em moeda estrangeira) e uma dívida interna (na moeda local). Com a dívida externa as coisas são um pouco mais complicadas, pois os governos não podem emitir moeda estrangeira. Porém, com a moeda local, se ela não estiver lastreada em algum outro ativo, ao menos em teoria, o governo pode emitir mais.
Quando se fala que “o governo está quebrado”, é preciso ter em mente que governos não “quebram” no mesmo sentido que empresas e bancos quebram.

Assista ao vídeo “Por que o Tesouro Direto é o investimento mais seguro do Brasil?”

Governos podem (salvo algumas exceções) emitir dinheiro para financiar as próprias dívidas. Obviamente, isso tem um custo (inflação, economia fragilizada e tensão social), mas, se for necessário, o governo vai lá e “liga a impressora”.

Mais um detalhe importante: Títulos públicos são considerados um investimento sem risco de crédito (que é a perda total), mas eles são afetados pelo risco de mercado (oscilações de preços). Por isso, se formos considerar as duas categorias de riscos propostas, um título público não é 100% isento de riscos.

Títulos bancários

Títulos bancários são, na maioria dos países, cobertos por algum mecanismo de seguro de depósitos (por conta do chamado “risco sistêmico”).

Aqui no Brasil, esse seguro de depósitos é provido por uma instituição chamada Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Na data de publicação deste artigo, o limite máximo de cobertura do FGC é de 250 mil reais por banco e por CPF. Então, até este valor (assumindo que o país e o sistema financeiro não entrem em colapso), podemos dizer que é um investimento sem risco.

Os títulos bancários mais populares no Brasil são os CDBs, as LCIs, a LCAs e a própria Caderneta de Poupança. Todos esses contam com a proteção do FGC que, desde que foi criado, sempre funcionou direitinho e nunca deixou “ninguém na mão”.

ETFs e fundos de índice

Até aqui, falamos apenas de investimentos em renda fixa. Agora é a hora de olhar um pouco para o mundo da renda variável.

Na renda variável, é, essencialmente, impossível eliminar o risco de mercado (bem, na verdade é possível eliminar o risco fazendo hedge, mas, geralmente, isso implica em eliminar o retorno também). Porém, se desconsiderarmos o risco de mercado e focarmos apenas no risco de perda (e aqui seria “risco de perda” mesmo, e não de crédito, pois não se trata de dinheiro emprestado), ETFs (Exchange Traded Funds) e fundos de índice podem ser considerados investimentos seguros.

Uma vez eu ouvi, de um americano, que investir em um ETF que replica um índice amplo (como o S&P500, nos EUA, ou o Índice Bovespa, no Brasil) é “apostar na civilização”.
Isso porque ETFs são, essencialmente, uma carteira das maiores empresas do país. Ao longo do tempo, algumas dessas empresas podem falir, fechar, se fundir com outras ou, simplesmente, saírem do mercado. Mas essa carteira vai se ajustando á nova composição e “segue em frente”.

Quando se investe em uma ação individual, existe o risco daquela empresa falir e o preço da ação ir “a zero”. Já num ETF do S&P500 uma perda total e irreversível só acontece se as 500 maiores empresas americanas falirem todas ao mesmo tempo…

É um cenário possível? Sim, claro que é possível! Porém, é extremamente implausível e, se acontecer, é porque, provavelmente, começou uma guerra nuclear em escala global (nesse caso, te garanto que o dinheiro será sua última preocupação).

Então, se desconsiderarmos o risco de mercado e focarmos apenas no risco de perda total, ETFs e fundos de índice (que são, essencialmente, a mesma coisa) podem ser considerados seguros.

Conclusão

Como vimos, alguns investimentos podem ser considerados como “livres de risco” em termos relativos.

Todo ativo financeiro existe em um contexto, e esse contexto é a economia e, em última instância, a própria civilização. Se a civilização ruir, qualquer ativo perde o valor – até o ouro (ninguém come ouro) e os imóveis (num cenário de “apocalipse zumbi”, não adianta ter um imóvel se você não tiver como defendê-lo dos invasores).

Enfim, podemos dizer que existe investimento sem risco… Mas é preciso que, também, exista uma civilização e o aparato institucional que faz com que aquele investimento “exista”.

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